Adriano de Lavor
18/11/2006 15:10
Quanto vale o amor? Fiquei pensando nisso ao assistir aos desdobramentos do "seqüestro" que mais uma vez colocou o Rio de Janeiro no noticiário policial, semana que passou. Nenhuma novidade. A alta exposição da cidade - cenário de novelas, filmes e fantasias nacionais - exige uma contrapartida de mídia: tudo que aqui acontece é desenrolado sob o frágil equilíbrio entre a ficção e a realidade, o que coloca as desilusões amorosas no acidentado e midiático terreno das tragédias humanas.
É amor ou é posse o sentimento que move o cidadão que, destituído da reciprocidade da companheira e invadido pelo vazio da solidão, arrasta-a pelos cabelos para dentro de um ônibus lotado e, de arma em punho, ameaça tirar a vida de ambos, sob o olhar estarrecido de dezenas de passageiros? Que sentimento é esse que exige platéia para sua desgraça e cobra audiência de cativos espectadores, sob a mira de um revólver?
Se estivéssemos em um país de letrados, poderia-se pensar que a idéia teria saído de um bom folhetim rodrigueano. Mais fácil, porém, é imaginar que o triste episódio tenha sido arquitetado por uma destas páginas da vida parecidas com aquelas narradas pela própria televisão - que, muito rapidamente, tratou de registrar todos os episódios do fato ao vivo, em cores e transformou-o numa boa pauta de reportagem.
A verdade é que muito mais do que em qualquer outro lugar, tudo no Rio de Janeiro acaba carregando consigo o poético apelo das imagens, mesmo quando estas se desenrolam em um desvalorizado transporte coletivo, na inóspita avenida Dutra. Aqui tudo é cenário, inclusive as pessoas. É esta a imagem nacional do brasileiro, produzida no Sudeste e exportada para todo o resto do País. Por isso mesmo, o drama do casal que assistiu ao amor lhes deixar para trás está longe de terminar.
Apesar do interesse furtivo pela notícia se esvaziar com o tempo, as cicatrizes subjetivas e as marcas objetivas da violência irão permanecer visíveis para todos aqueles que, direta ou indiretamente, se envolveram na história. Queres uma última e desesperada prova de amor? Declara-te para todo o Brasil, nos minutos finais da novela das oito. Ah, não é possível? Então coloca em pânico um grupo de pessoas que terás público e serás, finalmente, alguém.
Eu desconfio que nas grandes cidades, hoje, o amor não vale quase nada, na medida em que o seu valor está diretamente associado à visibilidade de quem ama. De tão desesperados para encontrar algum valor no que são e no que sentem, os indivíduos estão procurando reconhecimento na exposição pública de seus sentimentos, sejam eles a raiva, o rancor, o amor ou a paixão, lados complementares da mesma necessidade.
Na procura de si mesmo e daquilo que representam neste mundo, cheio de possibilidades televisivas, o ser humano real, aquele que paga imposto, pega ônibus, leva um fora e tem ressacas pesadas às segundas-feiras, está cada dia mais propenso a resolver seus problemas em dias carregados de fúria e de invisibilidade.
Se era amor ou posse o que o que aquele homem sentia, não sei dizer. Só me resta torcer para que a necessidade de se mostrar visível - em especial, numa cidade onde o que não se expõe não existe - não obrigue o ser humano a se render aos apelos do drama e da tragédia, que podem ser espetaculares quando narrados por Nelson Rodrigues, mas que deixam muito mais vazios e invisíveis aqueles que o protagonizam. Em busca do espetáculo e do reconhecimento dos que estão ao seu redor, o homem deixa de amar o outro para cultuar a sua própria imagem - aquela que nem mesmo ele enxerga. E isso, meus caros, não é atitude de amor. É muito mais um clamor desesperado por cidadania.