Adriano de Lavor
27/10/2006 13:01
Semana passada uma amiga comentou que eu já estava falando menos vezes a palavra "pronto". Aos seus ouvidos do Sudeste, esta seria uma das expressões que mais identificavam o meu sotaque cearense. Pronto: foi o suficiente para que eu ficasse com aquele comentário na cabeça. Apenas seis letras me enquadrando no perfil de "estrangeiro". Mas como é que se processam estas relações entre lugares e pertencimento, nos dias de hoje? Uso de expressões, pronúncias, acentos...
A globalização praticamente acabou com a diversidade lingüística. Graças às facilidades de deslocamento e de comunicação, uma espécie de "tradutor" simultâneo eqüaliza as diferenças em "prol" de um melhor entendimento. Será mesmo? O meu medo maior não é esquecer como falam os meus conterrâneos. O temor é de ficar com sotaque de repórter da Globo, aquele que pode ser transmitido do Oaipoque ao Chuí sem modificações. Completamente sem identidade e emoção.
No último final de semana, sentei-me à mesa de um bar, no Leblon, com quatro amigos cearenses - dois em visita à cidade, eu e outro moradores daqui. Óbvio que a musicalidade de casa, nestas horas, aflora que é uma beleza e ainda atrai a simpatia dos garçons do bairro - a maioria deles, também cabeça chata. Rimos com tantas diferenças e matamos a saudade de muita marmota criada pelos amigos - coisa que, me desculpem os outros - é coisa beeeem cearense.
Saí de lá tranqüilo com o backup de memórias e de sonoridades, e mais aliviado com a síndrome do "pronto". À certa altura da conversa, um dos amigos contou que a sobrinha adolescente havia conseguido, finalmente, apertar uma tecla sap entre a Aldeota e o Leblon. O nosso "pronto", imperativo e conectivo - e que é coisa pra ganhar tempo na comunicação, mesmo - foi rapidamente equiparado ao delicioso "demorou", carioquésimo.
Aí, demorou! É isso que a globalização não pode acabar. Diferentes sotaques, variados temperos e todos os outros acentos pessoais é que motivam os encontros e a curiosidade pelo outro. Sem diferenças não há conversas. E para que servem as palavras, então?
Inclusivas
O grupo Divercidade organiza, próximo 19 de novembro, o I Passeio sobre Rodas, em São Paulo. A idéia é reunir ciclistas, patinadores, skaters e usuários de cadeiras de rodas em um tour pelo centro histórico da cidade, estimulando o respeito à diversidade. Saiba +: www.abratgls.com.br/divercidade
O balneário de Búzios promove, segundo final de semana de novembro, o Búzios Pride Fest, evento que pretende fortalecer a vocação "gay friendly" da cidade, através de uma série de atividades voltadas para o segmento GLS. A expectativa da organização é reunir 10 mil pessoas.
Já está definido o tema da 11ª. edição da Parada Gay de SP, em 2007. "Por um mundo sem racismo, machismo e homofobia" irá incluir na manifestação a luta de heterossexuais negros, brancos, indígenas, ciganos, judeus, nordestinos, orientais ou integrantes de outras etnias que sofrem o racismo no Brasil.
Beleza roubada
Para aqueles que têm curiosidade de acompanhar os bastidores da produção de um outdoor. O fabricante do sabonete Dove está veiculando, na Internet, um making off que revela "segredos" de beleza. Uma poderosa crítica à própria indústria cosmética, que pode ser conferida no seguinte endereço:
Zona de risco
Entidades de defesa dos direitos humanos denunciam a ação de skinheads em São Paulo. Nas ruas Frei Caneca, Augusta e Consolação homossexuais têm sido atacados pelos grupos fascistas - em especial, nas noites de quinta a domingo. Os agressores também são responsáveis pela distribuição de uma série de cartazes pelo centro da cidade, onde se lê: "Bichas imundas, negros e baianos sujos". Para os que consideram Sampa o paraíso GLBTT, vale tomar mais cuidado.