Adriano de Lavor
07/10/2006 17:25
"A morte é um problema dos vivos. Os mortos não têm problemas. Entre as muitas criaturas que morrem na Terra, a morte constitui um problema só para os seres humanos". As palavras do filósofo Norbert Elias sempre me vêm à cabeça quando a morte volta ao ser pauta das conversas e das manchetes de jornal. Esta semana, a tristeza e o luto de 155 famílias foram compartilhados por todo o País. Cenas de dor e destruição; relatos de sonhos interrompidos e projetos arquivados por um trágico acidente aéreo. Não há como fugir da certeza recorrente da finitude humana.
Por isso mesmo é tão difícil encarar a morte sem desconforto, sem aquele ar de "graças a Deus não foi comigo", sem o ritual de bênção mecânico. Ave, Maria! três vezes! Não somos preparados para o fim. O que Elias nos alerta, no entanto, é como a dificuldade de lidar com a morte implica uma antecipação dela mesma - nos outros. Estamos falando aqui da velhice e da doença, estágios que nos acostumamos a associar diretamente ao início do fim. Ele sustenta o que não é novidade: a solidão dos moribundos - o título do artigo - é que os empurra mais rapidamente ao encontro com a foice impiedosa do fim.
O distanciamento que impomos aos que - acreditamos - estão mais perto da morte é, para ele, para aqueles que são excluídos do convívio social. "Consciente ou inconscientemente, elas resistem à idéia do seu próprio envelhecimento e morte tanto quanto possível", diz ele. E não é? Lembre-se do incômodo em ser chamado de "tio" pela adolescente que você conheceu criança; da satisfação em reconhecer que seus contemporâneos de escola já estão grisalhos e você... nem tanto! De todas as vitaminas, liftings e tinturas que ajudam a perpetuar a imagem de eterna juventude.
O que podemos tirar de proveito disso tudo é perceber que esse distanciamento não nos garante uma sobrevida adicional. A saudável luta pela manutenção da vida deve estar atenta às armadilhas impostas por um padrão eternamente jovem da vida. Sem a maturidade e a experiência daqueles que nos são próximos, corremos o risco de lamentar a sua ausência somente depois de não termos como revertê-la. Nestas horas é que percebemos o quanto vale a sabedoria popular: para morrer, basta estar vivo! Ao encararmos de frente o fim inevitável, por outro lado, garantimos o conforto daqueles que amamos e aprendemos realmente a ser humanos - e a encarar com mais naturalidade a única certeza que temos em vida!
Morte...
... é quando a lagarta já aprendeu tudo sobre a vida das lagartas. Aí ela se fecha numa casinha apertada chamada casulo, nascem asinhas nas suas costas e ela vira uma borboleta bem bonita e sai voando por aí, aprendendo um monte de coisas diferentes. Entregue-se com confiança à transformação".
Patrícia Gebrin, em Palavra de criança.
Constrangimento
É impressionante a votação avassaladora que elegeu cidadãos como Paulo Maluf e Clodovil Hernandez ao Legislativo de São Paulo. Exemplos como estes só confirmam a máxima de que o pior analfabeto é o analfabeto político.