Adriano de Lavor
12/08/2006 17:30
Em 1986, um amigo me convenceu a entrar na seleção para um intercâmbio no exterior. Tratava-se de um programa que financiava - em parte - a viagem de jovens a países do "primeiro mundo", proposta que me deixou excitadíssimo. A idéia de vivenciar, por um ano, uma outra cultura logo me interessou e não tardei em me inscrever. American Field Service. AFS. Nunca esquecerei a sigla da instituição responsável pela maior decepção da minha vida! Se hoje escrevo sobre este assunto é porque duas décadas são suficientes para superar a sensação de fracasso, para perceber o quanto eu e minha família fomos presas fáceis para gente mal intencionada e sem caráter.
Submeti-me à seleção e fui aprovado no primeiro exame, escrito, de conhecimentos gerais. Passei bem para a segunda fase, enfrentando entrevistas individuais e coletivas. Fui selecionado, por fim, para um grupo de aproximadamente 20 pessoas, muitas delas amigas e ou colegas da mesma escola. Durante um ano, participei de reuniões semanais dos "aprovados", cedendo inclusive o espaço da casa dos meus pais para algum destes encontros. Ingênuo, ofereci-me para ser relator dos encontros, tarefa que me impedia de faltar qualquer um deles. A causa seria justa, pensava eu. Mas meus esforços seriam em vão.
Depois de um ano de expectativa, as confirmações de viagem começaram a chegar. Um a um, assisti ao embarque de cada um dos meus companheiros. A minha nunca chegou. Só me dei conta de que não viajaria quando os cartões postais enviados por eles começaram a chegar à minha casa. Quase enlouqueço meus pais. O comitê de Fortaleza, a cidade onde havia concorrido, ruía com denúncias escabrosas de corrupção e roubo. Ninguém lá se responsabilizava por nada. Enrolaram minha família até quando não puderam mais: a bolsa estaria chegando, era o que diziam. Numa época em que não havia Internet, ficamos a ver navios.
De repente, uma ligação que recebemos da sede da instituição no Rio de Janeiro mudou tudo. O funcionário do AFS nem deixou que minha mãe se pronunciasse. Advertiu-a de que seu filho (eu, que estava ao seu lado, naquele momento) estaria vivendo novas experiências em outro país, conhecendo novas pessoas, etc e tal. Como se eu tivesse viajado, ele deu todas as orientações de praxe que distribuía aos pais dos escolhidos viajantes. Matamos a charada: alguém viajou no meu lugar. Alguém havia se apropriado da minha vaga, aquela que conquistara com tanto esforço.
Não houve como eles explicarem a situação que se colocava. E nem deram a mínima para isso, em todo o caso. Como meus pais não eram influentes, nunca receberam uma resposta, uma explicação. O tal American Field Service nunca se dignou nem mesmo a dar outro telefonema para minha casa. Para eles, tanto fez se iludiram mais um adolescente por um ano. Que isso sirva de advertência!
ATT...
Pantográficas
* Confirmado: já estão na lista das atrações do TIM Festival 2006: Devendra Banhart, Daft Punk, Patti Smith e a badalada Yeah, Yeah, Yeahs... O evento vai rolar no Rio e em SP dias 27, 28 e 29 de outubro.
* Sylvia Salles e Carlos Sato, da Alma Carioca Produções, movimentaram a inauguração da boate Freek, em Ipanema.
* Pão de Açúcar escolhe Fortaleza para comemorar o mês de aniversário da rede de supermercados. A festa será ao som de Zezé di Camargo & Luciano, dia 18, no aterro da Praia do Ideal.
* Pesquisa da Pew Research Center revela: 54% dos norte-americanos aprovam a união civil entre homossexuais.
* Gilberto Gil esteve na Feira da Música, em Fortaleza.