Adriano de Lavor
05/08/2006 16:06

Seria difícil. Imaginar a vida sem palavras seria torturante. Como compartilhar a velocidade das idéias se encaixando, se completando e, na maioria das vezes discordando, numa eterna luta entre probabilidade e lógica, entre significado e sentido? Sem palavras? Eu, hein? Definir, relatar, explicar, entender, interpretar, afirmar. Tantas operações comunicativas prescindem da palavra para simplesmente existirem. E nós, humanos - socialmente inseridos ou excluídos -, vamos acumulando sentenças, fraseados, discursos e silêncios à medida que logramos em nos acertar com as palavras. Não são pequenos, porém, os episódios de erro. As mensagens desqualificadas; as interpretações não imaginadas e as incertas escolhas pelo silêncio nos colocam frente à alteridade do outro, aquele que nos limita a fronteira e nos mostra a deliciosa diferença que existe do lado de lá. As palavras definem o outro; o outro nos define com palavras. E é aí que o conflito se transforma em comunicação.
Sem palavras não conheceríamos o desconhecido. Sem sentido seriam seus atos, sem cores e dores seriam as suas almas. Estaríamos condenados à solidão dos auto-retratos. A palavra cega deixaria sem luz as cidades. O silêncio vazio de significado, resumido a meras estruturas destituídas de sentido. Viajar não traria à mente os sinônimos de euforia, prazer e ousadia quando se pisasse em solo inexplorado. Trocar experiências seria simplesmente um esbarrar incômodo de corpos vazios, esvaziados inclusive de ar. Pois o ar que se respira tem este nome porque é filho das palavras!
São elas que nos trazem à realidade construída, aquilo que conhecemos por mundo e às verdades que acreditamos serem as mais justas e coerentes. Através do comunicar-se por meio das palavras é possível inserir-se ou desligar-se de idéias e afirmar-se sujeito e sentimento de uma narrativa histórica. Na exclusividade do silêncio, os conflitos se tornariam exclusivamente físicos, objetos refletores de reações químicas. O uso do raciocínio na escolha das palavras permite à informação circular, livre de preconceitos, por aquele que a recebe; é com palavras que este calcula, compara, contesta ou atesta as palavras vindas de outro. É misturando-se a elas que ele tece, com sua experiência, o texto multiplicado de sua existência.
As palavras unidas, reunidas e até as distorcidas, são as fibras que constroem o tecido de nossas vidas. São elas que anunciam aquilo que vivemos e dão vida aqueles com os quais compartilhamos; é através delas que o espelho nos mostra quem somos, o que fomos e, ao longe, o que poderemos ainda vir a ser. Uma vida destituída de palavras nos lançaria num profundo vácuo – cada vez mais distantes do momento de encontro, da possibilidade de percebermos onde termina a nossa pronúncia e começa o reconhecimento do outro. É. Seria difícil imaginar a vida sem palavras. Porque aí estaríamos sozinhos. Sem ter com quem falar. Exercitar o silêncio é saber que ele mesmo não existiria como tal, se não houvesse as palavras.
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Pantográficas
• O IV Festival Rock Pró-Cultura, concurso de bandas underground, será lançado no sábado, dia 12, na Feira da Música, em Fortaleza. O evento está previsto para acontecer ainda este mês.
• O Grupo de Apoio à Prevenção à Aids do Ceará é uma das 25 instituições finalistas ao Red Ribbon Award, que será entregue na semana que vem em Toronto, no Canadá, durante a XVI Conferência Mundial sobre Aids. Rogério Gondim e Regina Cavalcante viajam ao evento, onde representarão o GAPA-CE na Global Village, espaço da conferência onde os participantes expõem projetos e fecham parcerias. Um belo presente de reconhecimento para toda a equipe que toca a ONG, que este ano completa 17 anos de existência.
• O Grupo Somos, de Porto Alegre, inaugurou este mês o Ponto de Cultura para Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros do Rio Grande do Sul. A idéia é criar um centro de produção, documentação e difusão da cultura criada ou voltada para a comunidade homossexual. Walter Karwatzki assina a primeira exposição fotográfica.
• Continua o projeto “Terça se dança”, no SESC Iracema, em Fortaleza.
• Acontece, de 11 a 17 de novembro, em São Paulo, o VI Colóquio Internacional de Direitos Humanos. Saiba +: www.conectas.org/coloquio
• Próximo 22 de agosto a mineirinha Érika Machado lança seu disco “No cimento”, na Modern Sound, em Copacabana, no Rio. Vale visitar o site da moça: www.erikamachado.com.br. Na foto, Érika fotografada por Simone Com Sole.
Perto do fogo
O Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura e ONG Mediação de Saberes (ambos em Fortaleza) tiveram uma idéia luminosa. À cada lua crescente no calendário, um narrador é convidado a compartilhar memórias e afetos com o público. Último dia 2, a ativista Maria Amélia Leite levou ao evento, batizado de “Narrativas em volta do fogo”, um pouco da história dos povos indígenas. O evento é gratuito e acontece na Praça Verde, do Dragão. Agende sua próxima lua crescente e confira!