Adriano de Lavor
01/07/2006 23:53
Durante a I Guerra Mundial, alemães e ingleses que lutavam na linha de frente das trincheiras, protagonizaram uma trégua, na véspera da noite de Natal. Entoaram hinos religiosos, trocaram apertos de mão, mostraram fotos da família, enterraram seus mortos e jogaram várias partidas de futebol. Naquela terra de ninguém a ser conquistada - entre a linha de tiro de um lado e do outro - esqueceram, por 24 horas, motivações políticas, étnicas, sociais e culturais que motivavam o conflito, que ceifou milhões de vidas no início do século XX.
A Copa do Mundo se assemelha a esta trégua: apesar da prevalência de chances de vitória estar destinada às seleções dos países com melhores condições financeiras, estão todos no mesmo campo de possibilidades. Nas trincheiras do futebol já não há mais lama e frio, embora cada atleta represente, ali, a significação subjetiva de um povo. Enquanto vestem as cores de seu país, estes soldados da bola carregam em seus pés a responsabilidade afetiva em garantir tranqüilidade para aqueles que representam.
É por isso que as ruas se mantêm vazias e solitárias durante a exibição de cada jogo. Assistir às partidas entre familiares e amigos repete o antigo ritual - hoje midiatizado - de recebimento de notícias, que vêm de longe e que podem trazer orgulho ou dor nacionais. Gritar gol, neste sentido, assemelha-se a partilhar da vitória destes mortais ascendidos ao Olimpo da mídia e dar trégua, por 90 minutos, aos próprios problemas. Se, nas trincheiras do passado os gols representavam tiros silenciados de dois povos em guerra, na Copa assiste-se a um armistício espetacularizado entre povos que só partilham da mesma visibilidade e das mesmas chances políticas em um jogo de futebol. O esporte é, além de tudo, uma arena de disputa política. Por isso que todos só querem ver gol. Não precisa ser de placa, todos querem ver gol!
Qual é a parada?
* A 11ª Parada do Orgulho GLBT Rio está marcada para 30 de julho, em Copacabana. Este ano tem o tema "Sou cidadão igual a você - Pela criminalização da homofobia e em defesa da União Civil Já!" Quem está à frente é o Grupo Arco-Iris.
* Em Goiânia, o cantor Leonardo foi o alvo de protestos, último dia 28. Ele havia declarado, no Programa do Faustão, que um homem que ficasse com outro "deveria levar uma pisa". Quem apanhou foi sua reputação: a Associação Goiana de Gays, Lésbicas e Transgêneros (AGLT) promoveu um "pisaço" nos CDs do sertanejo, que ainda teve sua imagem transformada em "tomate ao alvo" em praça do Bandeirante. Os ativistas exigem, ainda, espaço de retratação à produção do programa.
* Só faltava essa. Os advogados de Suzane Von Richthofen ameaçaram alegar, em sua defesa, que a mãe assassinada pela cliente teria um relacionamento homossexual. E aí? Também cogitam alegar que Suzane seria "dominada sexual e psiquicamente" pelo namorado. Ah, tá. Apelação sem limites.
* A II Parada de Niterói reuniu, segundo os organizadores, 60 mil pessoas. Para eles, a maior fora das capitais. Em Campinas, SP, os números contabilizaram 20 mil.
* "O amor é importante. O sexo é um acidente, pode ser igual ou diferente. Punk contra a homofobia". Por conta desta frase, escrita em sua camiseta, o estudante Gelirton Almeida Siqueira, 18, foi agredido, a caminho da VII Parada pela Diversidade Sexual, em Fortaleza. "Não sou homossexual, mas apóio a causa. Cada um deve ser o que for", declarou Gelirton. Agressores ainda não foram localizados pela Polícia. A parada reuniu 300 mil na avenida Beira Mar.
* Brasil bate recorde, este ano, no número de paradas. Ao todo, serão 102 em todo o País. Só em Minas são 12; Rio de Janeiro aparece na vice-liderança, com 11. Com o bronze, vem o estado da Bahia, com 9.
* Na capital francesa, cerca de 800 mil pessoas participaram da parada local. O desfile aconteceu entre a Torre Montparnasse, sul de Paris, até a célebre praça da Bastilha.
ATT...
Pantográficas
* Salgueiro já escolheu o seu samba enredo para o Carnaval 2007. A inspiração é o espetáculo da Cia. dos Comuns, dirigido pelo baiano Márcio Meirelles. "Candaces - A Reconstrução do Fogo" revelará uma dinastia de mulheres negras que comandaram um império africano antes de Cristo. Saiba +: www.salgueiro.com.br.
* A boate Josefine, na Savassi de BH, foi palco do aniversário de Nanny People.
* Fortaleza se prepara para sediar a FW/Eletronic 2006, que promete ser o maior festival de música eletrônica do Norte e Nordeste. A data prevista é 12 de outubro e uma das atrações confirmadas é o projeto psytrance SUB6, de Israel.
* Revista Ciência Política completa quatro anos contabilizando 50 mil acessos por mês. O endereço www.achegas.net reúne artigos de profissionais de diversas universidades públicas brasileiras.
Direto ao ponto
Comunicado de uma agência carioca que afirmava, esta semana, selecionar figurantes para a próxima novela global das seis: "novela de época, anos 50 - estilo judeus ou italianos". Para os candidatos, as exigências: "pessoas brancas, de olhos claros". Nada de mechas no cabelo, nada de pele morena, nada de espinhas no rosto. Ah, mas o uso de lentes de contato verdes e azuis tá liberado. Anos 50? A novela, assim, bem poderá se chamar "artificialíssima"!
Vale morrer?
O leitor tem a mesma sensação de que o Brasil nunca joga realmente tudo aquilo que sabe e que pode? Em suspenso até o último minuto, a impressão de perigo constante faz a alegria dos narradores esportivos, que estimulam ao máximo a potência do cárdia - como dia a personagem grega Katina, de Belíssima - dos telespectadores.
Das antigas
Em tempo: A palavra cárdia é de origem grega (kardía) e desde os tempos hipocráticos (sec. V a.C.) já era usada para designar tanto o coração como a parte superior do estômago.