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Atitude

ATITUDE

Rua, espaço de criação

Adriano de Lavor


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09/06/2006 05:47


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A morte parece estar sempre à espreita da arte, anunciando o quão fugaz é o nosso sonho da criação. Pelo menos naqueles momentos em que um desagradável sentimento de perda e de ausência de sentido paira sobre o coletivo, como se fora um aviso do fim. Do fim que nos é certo. Foi assim quando Chico Sciense pegou a ponte errada no Carnaval, também quando Cássia Eller se despediu, bem pouco antes de uma noite de reveillon.

Esta semana, uma das guitarras dos Detonautas foi calada para sempre, na madrugada fria de um subúrbio carioca, graças à perversa e distorcida violência que ceifou a vida do Nettinho, músico cheio de vida e juventude. A morte nos colocou, novamente, a pensar na finitude das coisas e na infinidade de preocupações que nos cercam quando estamos vivos. Incerta como a arte, a nossa vida também é finita, sem hora para sair de cena. Breve, vida breve.

Essa dificuldade em se acostumar com o ciclo de nascimento, vida e morte não é nova para a humanidade ocidental, que cria, a cada dia, estratégias de fuga para uma realidade virtualizada, longe da experiência coletiva do convívio. Grades e muros imobilizam as pessoas e transformam a vivência das ruas em uma sinistra roleta russa, onde vítimas e algozes respiram aliviados por mais um retorno aos
dispositivos da segurança e do controle.

Controlados e distantes da vivência das ruas, seguimos nos trancando em nossos castelos individuais, deixando de sentir a riqueza das trocas, da coletiva experimentação do viver coletivo. Cada dia ficamos mais distantes, portanto, da efetiva criação artística. Nossos passos - midiatizados por celulares, corredores eletrônicos e pulsos magnéticos - deslizam com facilidade sobre a fibra ótica, embora não se sintam seguros e pelos a ínfimos 100 metros de casa.

Triste fim, este nosso. Além de não termos a certeza de quando partiremos, amenizamos o desconforto dos "perigos" dentro de conchas de comunicação, cada vez mais específicas, excludentes e espetaculares, enquanto nos afastamos da magnífica capacidade humana de criar. Dentro de quatro paredes as idéias não circulam. Ar condiconado congela inclusive sentimentos. É hora de sairmos às ruas, calando um pouco as palavras de ordem e dando voz à emoção humana. Sem conhecermos o espaço que nos cerca, corremos o risco de deixar a tarefa de criação para estudiosos futuros, que contarão nossa história através de fragmentos silenciosos e escombros solitários de nossa existência.

É hora de escrevermos a nossa história ocupando estes espaços. De outro modo, estaremos nos furtando da oportunidade de criar a nossa própria biografia e confirmando - e é aí que mora o perigo - que tudo aquilo que está nas ruas é violento, cruel, desumano e mortal. A vida das cidades depende de nossa circulação por elas. Se não lutarmos por isso, estaremos sendo cúmplices de toda violência, exclusão e marginalização do espaço público.

Pantográficas


* Ministério das Comunicações prorrogou até 5 de julho as inscrições para as entidades interessadas na autorização de serviço de radiodifusão comunitária em 527 municípios brasileiros. Saiba +: www.mc.gov.br.

* O documentário Butterflies, do brasileiro Vagner de Almeida, foi um dos filmes selecionados para o Aids 2006 Film festival, evento paralelo à conferência mundial sobre a doença, que acontece em julho em Toronto, no Canadá.

* O Ceará foi o primeiro estado brasileiro a lançar a Campanha de Acessibilidade, definida na 1ª Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Saiba +: (85) 31012870.

* Em turnê pela Itália, Fafá de Belém anda faturando com o clima da Copa. Sua versão do Hino Nacional já bateu 5 mil downloads para celulares Claro, Tim, Oi e Brasil Telecom. Em breve, o truetone estará disponível também para clientes da Telemig.

* R$ 957,4 milhões. Faturamento líqüido da TV Globo no primeiro trimestre de 2006, com publicidade.

Muito orgulho? Muito amor?
Brasileiro está tão acostumado a se anestesiar com a Copa do Mundo que enfeita tudo de verde e amarelo a cada quatro anos. A catarse de "conquistar o mundo" é incentivada ao extremo, como se cada gol representasse a efetiva participação de cada cidadão na melhoria do País. Triste ilusão. Enquanto as bolhas nos pés do Fat Fenômeno são a preocupação e é ostensiva a cobertura na televisão, ficamos, cá, à espera do triunfo de um selecionado de exceções. As oportunidades são tão poucas neste País, que a identificação com estes soldados da bola é inevitável. Pelo menos bandeirinha, camiseta e unha pintada acontecem. E ai de quem lavar a camiseta vencedora. Cada um encontra uma maneira de se juntar à galeria dos ilustres. Afinal, este parece ser o único Brasil do qual se tem "muito orgulho e muito amor", se me permitem parafrasear este ufânico hino, que mais parece um lamento desesperado por um pouco de cidadania.

Preço alto
No mês em que acontece a Parada da Diversidade Sexual em todo o País, um episódio marca a importância de eventos deste porte. No Rio, esta semana, o mecânico Genessy Oliveira, 35, espancou o filho Rogério, de 18, até a morte. Pai não aceitava a homossexualidade do filho, e por isso o matou. Fica-se pensando se aceitamos melhor as diferenças ou só conseguimos conviver com aquelas que podem pagar pela sua existência. Ser diferente, hoje, literalmente tem um preço. Quem não pode pagar, é obrigado a quitar esta dívida com a própria vida.


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