Atitude
ATITUDE
Orgulho e preconceito
Adriano de Lavor
08 Abr 2006 - 20h16min
A maioria das pessoas nunca esteve em uma favela. A imagem que se faz dos morros - em especial, dos localizados no Rio de Janeiro - é sempre filtrada pelas notícias policiais - estampadas nas páginas de jornal e nas telas de TV - ou pela espetacularização promovida pelo cinema. Nem de longe se imagina que a vida lá em cima pode render belas imagens de vida como esta, captada pelo fotógrafo francês Vincent Rosenblat.
É que o preconceito institucionalizado pela mediocriadade não consegue enxergar orgulho onde se revela, mais facilmente, o preconceito. Certamente a cena não faz o gênero "shopping-academia-novela". Mas que o aproach é sexy, isso não há como negar. É que essa gente que tem que ralar e matar um leão por dia para sobreviver não está acostumada a se preocupar com bobagem. Encara a vida como desafio e segue em frente. No final de semana ou tem funk ou tem samba. Não dá para perder tempo. É vida que segue!
É aí - literalmente - que mora a diferença. Enquanto nós, do asfalto, encaramos a favela como a zona onde o emaranhado de fios de alta tensão só reflete uma eterna "tensão" perigosa, para quem lá vive o espaço é, nada mais nada menos, do que sua própria residência. Imagine conviver com os olhares de distanciamento impostos pelos agenciamentos do dia-a-dia. Quem mora na favela não passa de estatística desatualizada. É gente sem CEP. É gente que mora, na sua maioria, em ruas que nem nome têm. Mas ainda é gente que vive. Ponto.
Enquanto isso, haja maquiagem, interlace, iPods, viagens e mais uma multidão de artifícios para encarar o asfalto que pavimenta a vida, aqui embaixo. Como se o perigo rondasse nossas almas, vivemos em uma moratória ilimitada de segurança, pagando para não ser vistos. Enfia-se o orgulho nos bolsos e nos carrinhos de supermercado. Adeus, espaço público. O povo do asfalto não se atreve a ocupar a rua, esse território perigoso e hostil. Melhor escapar para o mundo virtual e sua realidade difusa e fugidia.
Vive-se, hoje, em cidades divididas, partidas, repartidas, onde são poucos os que se atrevem cruzar a linha divisória entre o mundo imediato onde se vive e a sociedade que se constrói, à revelia de desejos, medos, desafios e coragens. Ninguém tem nunca nada a ver com isso. Experimente chorar na rua, em plena luz do dia. Os olhares são de desvio. Um incômodo obstáculo na rota que se segue.
Mas, vale experimentar, um dia, parar à subida de um morro. É inegável e irresistível a força criadora e a beleza rústica de uma favela à sua frente. De dia, são centelhas de gente escorrendo pelas vielas; são esperanças infantis empinadas por pipas e desencontros juvenis realçados pelos estampidos de balas, fogos de artifício e sons tirados por latas. À noite, as luzes que se acendem - na maioria clandestinas ligações entre os esquecidos e o progresso - revelam-se pontos de fuga e de protesto: esta gente insiste em viver, por mais que a consideremos perigosa, hostil, indesejada e invisível.
Como diria o samba embalado pelas notas de Tom Jobim, ''o morro não tem vez''. Mas é ele mesmo quem completa: ''quando derem vez ao morro, toda a cidade vai cantar''. O carnaval, o baile funk e a sensualidade do casal acima só confirmam o que a música registrou para o futuro. E vamos em frente, que a semana ainda nem subiu a primeira ladeira!
ATT...
GPS news
- A atriz Karla Karenina aposta em uma nova vertente artística. Depois de atuar como professora de artes sensuais no filme Verdades e Mentiras Sobre o Sexo, de Euclydes Marinho, a cearense preparou uma versão das técnicas que estudou para sua personagem e montou um curso com uma proposta holística. Em se tratando da multifacetada Karla, é sucesso na certa.
- Fortaleza irá conhecer a nova fragrância de Ralph Lauren, próxima terça (11). O lançamento de Polo Black vai ser em clima de jazz, no badalado Café Pagliuca.
- Também na terça, no Rio, acontecerá a Caminhada por Gentilieza. A concentração está marcada para as 8 da manhã na Praça Almirante Júlio de Noronha, no Leme. Se fosse vivo, o profeta Gentileza estaria completando 89 anos.
- Orquestra Sinfônica de Manaus abriu temporada, semana passada, no Atlético Rio Negro Clube. Na pauta, Rossini e Beethoven, além de Gilberto Gil e Tom Jobim.
Fala, leitor!
- Leitor Gabriel Ramalho de Farias, por e-mail, reclama do atendimento grosseiro que lhe foi dispensado por membro do staff da lanchonete Capitão Mostarda, em Fortaleza. Segundo ele, o filho do proprietário não só foi agressivo com o grupo de clientes, como não reconheceu que a confusão teria sido causada por um erro dos próprios funcionários. Pelo constrangimento, Gabriel afirma não voltar mais ao local.
- Outro leitor, (que não quis se identificar) também da capital cearense, reclama do cancelamento - sem aviso prévio - do show que a cantora Simone faria na cidade. Ele diz que a produção não deu a menor satisfação para o público, depois de uma semana de divulgação do evento.
Acadêmicas
- Última sexta (07) o psicólogo Fabrício Viana lançou, na livraria Ícone, em São Paulo, O Armário - Vida e Pensamento do Desejo Proibido. O livro fala sobre as dificuldades enfrentadas pelos homossexuais, abrangendo família, história, conflito, neuroses, psicologia, ciência, religião, machismo e homofobia, entre outros temas. Saiba mais: http://www.oarmario.com
- Foi prorrogado o prazo para inscrição de trabalhos nos núcleos temáticos do simpósio internacional Fazendo Gênero 7 - Gênero e Preconceitos, que irá acontecer em Florianópolis, de 28 a 30 de agosto. A data limite é dia 15, próximo sábado, e maiores informações podem ser obtidas através do site www.fazendogenero7.ufsc.br ou do e-mail fgenero@cfh.ufsc.br.
Montage on fire
Eles surgiram no Ceará, em 2005, mas já estão incendiando o Brasil como autênticos representantes da onda eletropunk. Leco Jucá, Daniel Peixoto e Patrick Bachi já são conhecidos na cena underground de Fortaleza, Rio de Janeiro e São Paulo, e já despertaram críticas positivas em veículos conceituados como a MTV, a revista Bizz e a TV Globo. Isso não diz nada quando se confere a performance dos caras ao vivo - um sopro de juventude e de legítimo rock'n' roll. Como se não bastasse, eles estão no cast dos festivais Campari Rock e Abril Pro Rock, e ainda têm vasto material no mundo virtual. É possível acessar às músicas em MP3 (www.tramavirtual.com.br/montage), o primeiro clip da banda, If U Like It (www.youtube.com/profile?user=bandamontage) e ainda assisti-los em vídeo (www.geradormusic.com.br). Imprescindível para quem quer se manter jovem. E com atitude!
É que o preconceito institucionalizado pela mediocriadade não consegue enxergar orgulho onde se revela, mais facilmente, o preconceito. Certamente a cena não faz o gênero "shopping-academia-novela". Mas que o aproach é sexy, isso não há como negar. É que essa gente que tem que ralar e matar um leão por dia para sobreviver não está acostumada a se preocupar com bobagem. Encara a vida como desafio e segue em frente. No final de semana ou tem funk ou tem samba. Não dá para perder tempo. É vida que segue!
É aí - literalmente - que mora a diferença. Enquanto nós, do asfalto, encaramos a favela como a zona onde o emaranhado de fios de alta tensão só reflete uma eterna "tensão" perigosa, para quem lá vive o espaço é, nada mais nada menos, do que sua própria residência. Imagine conviver com os olhares de distanciamento impostos pelos agenciamentos do dia-a-dia. Quem mora na favela não passa de estatística desatualizada. É gente sem CEP. É gente que mora, na sua maioria, em ruas que nem nome têm. Mas ainda é gente que vive. Ponto.
Enquanto isso, haja maquiagem, interlace, iPods, viagens e mais uma multidão de artifícios para encarar o asfalto que pavimenta a vida, aqui embaixo. Como se o perigo rondasse nossas almas, vivemos em uma moratória ilimitada de segurança, pagando para não ser vistos. Enfia-se o orgulho nos bolsos e nos carrinhos de supermercado. Adeus, espaço público. O povo do asfalto não se atreve a ocupar a rua, esse território perigoso e hostil. Melhor escapar para o mundo virtual e sua realidade difusa e fugidia.
Vive-se, hoje, em cidades divididas, partidas, repartidas, onde são poucos os que se atrevem cruzar a linha divisória entre o mundo imediato onde se vive e a sociedade que se constrói, à revelia de desejos, medos, desafios e coragens. Ninguém tem nunca nada a ver com isso. Experimente chorar na rua, em plena luz do dia. Os olhares são de desvio. Um incômodo obstáculo na rota que se segue.
Mas, vale experimentar, um dia, parar à subida de um morro. É inegável e irresistível a força criadora e a beleza rústica de uma favela à sua frente. De dia, são centelhas de gente escorrendo pelas vielas; são esperanças infantis empinadas por pipas e desencontros juvenis realçados pelos estampidos de balas, fogos de artifício e sons tirados por latas. À noite, as luzes que se acendem - na maioria clandestinas ligações entre os esquecidos e o progresso - revelam-se pontos de fuga e de protesto: esta gente insiste em viver, por mais que a consideremos perigosa, hostil, indesejada e invisível.
Como diria o samba embalado pelas notas de Tom Jobim, ''o morro não tem vez''. Mas é ele mesmo quem completa: ''quando derem vez ao morro, toda a cidade vai cantar''. O carnaval, o baile funk e a sensualidade do casal acima só confirmam o que a música registrou para o futuro. E vamos em frente, que a semana ainda nem subiu a primeira ladeira!
ATT...
GPS news
- A atriz Karla Karenina aposta em uma nova vertente artística. Depois de atuar como professora de artes sensuais no filme Verdades e Mentiras Sobre o Sexo, de Euclydes Marinho, a cearense preparou uma versão das técnicas que estudou para sua personagem e montou um curso com uma proposta holística. Em se tratando da multifacetada Karla, é sucesso na certa.
- Fortaleza irá conhecer a nova fragrância de Ralph Lauren, próxima terça (11). O lançamento de Polo Black vai ser em clima de jazz, no badalado Café Pagliuca.
- Também na terça, no Rio, acontecerá a Caminhada por Gentilieza. A concentração está marcada para as 8 da manhã na Praça Almirante Júlio de Noronha, no Leme. Se fosse vivo, o profeta Gentileza estaria completando 89 anos.
- Orquestra Sinfônica de Manaus abriu temporada, semana passada, no Atlético Rio Negro Clube. Na pauta, Rossini e Beethoven, além de Gilberto Gil e Tom Jobim.
Fala, leitor!
- Leitor Gabriel Ramalho de Farias, por e-mail, reclama do atendimento grosseiro que lhe foi dispensado por membro do staff da lanchonete Capitão Mostarda, em Fortaleza. Segundo ele, o filho do proprietário não só foi agressivo com o grupo de clientes, como não reconheceu que a confusão teria sido causada por um erro dos próprios funcionários. Pelo constrangimento, Gabriel afirma não voltar mais ao local.
- Outro leitor, (que não quis se identificar) também da capital cearense, reclama do cancelamento - sem aviso prévio - do show que a cantora Simone faria na cidade. Ele diz que a produção não deu a menor satisfação para o público, depois de uma semana de divulgação do evento.
Acadêmicas
- Última sexta (07) o psicólogo Fabrício Viana lançou, na livraria Ícone, em São Paulo, O Armário - Vida e Pensamento do Desejo Proibido. O livro fala sobre as dificuldades enfrentadas pelos homossexuais, abrangendo família, história, conflito, neuroses, psicologia, ciência, religião, machismo e homofobia, entre outros temas. Saiba mais: http://www.oarmario.com
- Foi prorrogado o prazo para inscrição de trabalhos nos núcleos temáticos do simpósio internacional Fazendo Gênero 7 - Gênero e Preconceitos, que irá acontecer em Florianópolis, de 28 a 30 de agosto. A data limite é dia 15, próximo sábado, e maiores informações podem ser obtidas através do site www.fazendogenero7.ufsc.br ou do e-mail fgenero@cfh.ufsc.br.
Montage on fire
Eles surgiram no Ceará, em 2005, mas já estão incendiando o Brasil como autênticos representantes da onda eletropunk. Leco Jucá, Daniel Peixoto e Patrick Bachi já são conhecidos na cena underground de Fortaleza, Rio de Janeiro e São Paulo, e já despertaram críticas positivas em veículos conceituados como a MTV, a revista Bizz e a TV Globo. Isso não diz nada quando se confere a performance dos caras ao vivo - um sopro de juventude e de legítimo rock'n' roll. Como se não bastasse, eles estão no cast dos festivais Campari Rock e Abril Pro Rock, e ainda têm vasto material no mundo virtual. É possível acessar às músicas em MP3 (www.tramavirtual.com.br/montage), o primeiro clip da banda, If U Like It (www.youtube.com/profile?user=bandamontage) e ainda assisti-los em vídeo (www.geradormusic.com.br). Imprescindível para quem quer se manter jovem. E com atitude!
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