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Crise financeira mundial atinge Santo Antônio

Tarcísio Matos
18 Out 2008 - 17h22min

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Lagoa Seca, 480 km de Fortaleza, no meio das brenhas. O cenário é a bodega de Quinca Soldado, típica do interior. Cachorro mosquitento pegador de preá cruza o vão onde se deitam 'bassouras', 'latras' de querosene, cordas...

Cheiro de peixe salgado no mundo! O feijão, sortido de gorgulho no estio, domina os pedidos de balcão. Três moradores em três tamboretes, entre as três portas do poente, confabulam aresia, entornam lapadas de cana.

Serenos da pôde àquela hora por que é sábado, e beira o final da manhã. Tem carne de gado nova no vizinho frigorífico do Natan. Festivo é o comércio do Quinca. Rádio às alturas. Nas paradas, a crise financeira mundial, com BG de Calcinha Preta.

E pra quem pensa que matuto num tá ligado nas coisas, espia só!

Menino, dinheiro enrolado em papel de embrulhar pão, pede pacote de 10 quebra-queixos - 10 centavos mais caro. Senhora desembolsa 50 centavos a mais por 15 bananas do quintal do bodegueiro. Velhinho paga 2 reais pelo quilo da farinha, até ontem a 1 e 50.

- Diabeisso, Quinca? Carestia monstra, macho! - invoca-se um bebinho.

- O Bear Stearns e o Goldman Sachs podem quebrar. Quinca Soldado, não!

'Escutura'
O trio que se mela ingênuo voa nas asas do economês bodegueiro de Quinca - e sua citação aos veneráveis bancos de investimentos (Bear Stearns e Goldman Sachs). Negrada se faz de entendida e arrisca palpitar.

O mais magro diz que quem morrer por esses dias "tá pebado".

- O subprime do caixão deve de tá um despotismo!

Instigados, os outros arrotam panelada sobre o desconhecido. O do bigodão conta que se enfezou com os preços da borracharia do Claudionor; o de "bermuta", que "Deus livre Lagoa Seca de virar Noviorque!"

Ante tão abalizadas análises, Quinca pergunta onde aqueles senhores foram buscar tanta informação sobre a crise de crédito que envolve os mercados financeiros. Ou melhor, em que "leitura" beberam tantos conhecimentos.

- Num foi leitura não, nós num sabe lê! Foi só na "escutura", escutando o povo falarem...

Fé no 'vridro'
Meio dia em ponto e Quinca Soldado começa cerrar as portas da bodega. Bebinhos já se foram. Ainda há tempo da empregada de dona Nazaré (moça velha aposentada, cega de guia) pedir um 'vridro' de óleo de peroba.

Nazaré é devota de Santo Antônio e tem dele uma estátua de madeira de 8 quilos. A "estauta" tá carecendo dum brilho. Quem vai fazer isso é essa empregada, que acha melhor lustrar a peça de madeira no quintal, tem mais luz.
No que a menina tira a pesada estátua da cômoda, deixa no exato lugar o vidro de óleo de peroba. Nazaré, é hora de peditório, ajoelha-se, benze-se e empurra o pau a rezar... Diante do vidro de óleo de peroba!!!

- Glorioso Santo Antônio, eu me sinto chamada pro casamento. Por isto, me ajuda a encontrar um namorado bom, amável, sério e sincero...


EFEITO DOMINÓ

MEU TIPO INESQUECÍVEL - XVII
Audifax Rios

audifaxrios@yahoo.com.br


Conheci o cronista através do compadre ZéDomingos, numa noite de boemia, no centro desta Fortalezamada (como ele a chamava), num barzinho freqüentado por políticos e artistas, onde cana tinha o nome de parafuso: o Belas Artes, em frente ao velho prédio da Assembléia Legislativa, hoje Museu Histórico.

De lá saí com a primeira encomenda, fazer uma capa para o livro O marujo do navio de pau, que estava no prelo do Zequinha Jatay. De lá saímos com uma grande amizade já consolidada que me levou a fazer outras capas e ilustrações internas para outros livros, tais: O beco; Fortalezamada - roteiro para os amantes de uma cidade; Não pode chegar dezembro; 100 trovas de se tirar o chapéu; O planeta das crianças alegres e As moças não fogem mais com o circo.

Ele foi o idealizador da Academia do Beco, uma agremiação que não chegou a sair do papel, e que teve apenas uma reunião, bem informal, lá no Lorena da 25 de março, o Bar do Zezinho ou dos publicitários. Mas tinha uma pá de gente boa neste sodalício imaginário, senão vejamos: ZéDomingos (o maior incentivador), Carlos Paiva, Dedé de Castro, José Augusto Lopes, Rogaciano Leite Filho, César Coelho, Estrigas (não tem mulher, não?), Gervásio de Paula, Airton Monte, Narcélio Limaverde, Blanchard Girão, Juarez Temóteo, Lustosa da Costa, ele e eu.

Amante do rádio, mantinha com a mulher, dona Neuza (Selma Lobo) a revista Folha do Rádio que, além de deixar as fanzocas em dia, ainda distribuía lápis/brindes com fotos dos ídolos. Tenho alguns que ganhei de presente do poeta Virgílio Maia com as estampas de Ayla Maria, Augusto Borges, Keila Vidigal (alô Zezinho!), Aluízio Milfont, Celina Maria, Gerardo Barbosa, Ângela Maria, Albuquerque Pereira e outros. Faziam parte de um concurso da Associação Cearense de Rádio destinado à construção da sede própria.

Pois foi este cronista e trovador que escolhi para ser o patrono da cadeira que acabo de ocupar na Alane - Academia de Letras e Artes do Nordeste, numa bonita festa acontecida no Ideal Clube, nesta última quinta-feira. Onde brindei os presentes com o livreto Ciro, o beco e o circo, contendo biografia e crônicas suas.
E é por tudo isto que Cirolares, ou Ciro Colares Penha, o escrevinhador do Beco do Segundo, é o meu personagem inesquecível de hoje.


CHARADAS NOVÍSSIMAS (Colaboração de Petrônio Câmara)

> Atravessa por sua estatura e SALVO-CONDUTO. 2-2
> Quem cobre seus erros não salta para a CHEFIA. 1-2
> Uma opção salutar torna-se AUDÁCIA. 1-3
> Vou para o casamento da enxerida NOIVA. 1-3
> O líder chama todos presentes de BURROS. 1-1

Respostas Anteriores:
BARQUEIRO - CABEÇA-CHATA - DÉDALO - ESTOJO - FALATÓRIO

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19/10/2008
09:06

Beleza mesmo estas duas belíssimas crônicas do Tarcisio e do Audifax. Na bodega do Quica só faltou mesmo sarrabulho e tripa de porco torada bem sequinha. Aí a negrada num saía era nunca. Ri à tripa fôrra.

Amaury Feitosa

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