Tarcísio Matos
13/09/2008 16:39
João Gaibu sempre teve uma visão diferente de mundo. Falava literalmente com portas e panelas, cochichando segredos de estado inconfessáveis. Na conversa, umas tais rapaduras gasosas, um certo pão líquido. Tratava de chuva prensada e milho verdade amarelo.
A meu ver, o maior defensor da teoria sobre o Desenvolvimento Industrial das Crianças. Nunca soube, a rigor, o que queria ele dizer com isso, mas vi pertinência naquela loucura aparente.
Numa aula de Física do Colégio Joaquim Nogueira, nos idos de 72, vi-o defender com unhas e dentes a criança como um "ente preliminarmente infantil no que diz respeito ao mamar. Mas, extremamente adulto no ato de golfar".
Ao admitir a existência de uma praga perene de gafanhoto em Saturno (os anéis, em verdade, são gafanhotos em movimento "redondelíneo" e uniforme), João Gaibu abre concessão perigosa: a água doce das lagoas contém glucose.
Evidente que todo gênio comete bobagens. E a maior dele não é nem o fato de tomar suco de farinha de mandioca na madrugada, pra combater os radicais livres, mas pelar-se de medo de pegar "um câncer de pele nas orelhas".
Se o de comer em casa é galinha (come galinha diariamente), obriga a mulher a não somente lavar a penosa com bastante água, limão e sal. Faz mais: obriga ela a ENSABOAR a penosa com sabão em barra, esfregando firme e forte sob as asas, na região do sobrecu, no pescoço, na titela.
Idalmira, a consorte, tem sofrido com esse papo de galinha ensaboada de João Gaibu. Mas, não tardou e a primeira merda já aconteceu nesse sentido. Idalmira teve de socorrer um familiar às pressas e botou a empregada pra fazer o serviço de ensaboamento da mistura do almoço.
Empregada recém chegada do sertão. Havia oito dias que aportara dos Inhamuns, braba toda. Lembro que João Gaibu, certo dia frescando com ela, pediu um copo de "vrido" pra tomar uma cana. A moça, de nome Samira, mangou da forma como o patrão fizera o pedido e...
- De vriiido! Cana é em 'cope' de prástico, seu João! Vrido é só pra iorgute!
À paulada
O certo é que a mulher de João saiu vexada e, sem aprofundar a questão, pediu somente que Samira lavasse e ensaboasse a galinha do almoço. Idalmira, pois, não fora clara com a secretária quanto aos pormenores ensaboantes. Mil coisas ciscaram na mente humilde de quem precisava mostrar serviço.
Daí, após lavagem com água fervente, bateu o frango com um pau; antes de botar o bicho pra quarar, espremeu bem, até sair toda água. Espremeu com a ajuda de um senhor: ele nos pés e ela no pescoço; torceram até o frango torar no meio. Samira ainda passou amaciante (de roupa) na carne e botou grude...
Enfim, a pele daquilo que serviria de almoço estava em frangalhos. A carne, "esfranganhada". E o frango, secando no varal. Meio dia, tempo de botar a ave no fogo. O cheiro da comida estranha - limpo, mas diverso do que sempre se sentiu ali. "Frango ensaboado à paulada", devia ser o nome do prato.
João deu a primeira garfada e um pulo de emputecimento. Não era pra menos. Lá da rua se ouvia o homem berrar com a incompetente empregada:
- Num te disseram que orégano com frango não combina, diabo!?!
EFEITO DOMINÓ
MEU TIPO INESQUECÍVEL XVI
Audifax Rios
audifaxrios@yahoo.com.br
Quando do centenário de nascimento de Pablo Neruda (1983), nosso poeta limoeirense Luciano Maia lançou Neruda, canto memorial, para o qual fiz capa e ilustrações. Na ocasião, no Teatro Universitário, foi cumprida programação constante da encenação da peça As três meninas, um show com César Barreto (Virulo, Victor Hara) e uma exposição de desenhos (América esperança), deste escriba. Esteve presente o prefaciador Thiago de Mello, então, com 57 anos de idade, vindo de sua Barreirinha, nos cafundós do Amazonas, branco como a espuma da pororoca.
Tempos depois cruzei, em Fortaleza, com o poeta amazonense na Bienal Cearense do Livro (2004), quando conheceu Jaguaribe, memória das águas, do dito Luciano, e me procurou para falar da parte visual do livro, um projeto corajoso, artesanal, que comemorava os 20 anos do épico jaguaribeano.
Agora me encontro com Thiago de Mello no planalto, na Feira do Livro de Brasília, na qual foi o homenageado maior. Reverenciei-o em forma de livro (Ao cearense desbravador) e trocamos idéias sobre a vida, o homem.
De lá pra cá o mesmo branco na roupa e no coração. Um coração tão grandioso quanto a Amazônia, tão derramado quanto o rio-mar.
Prometemo-nos correspondência contínua, que lhe direi? Do Nordeste seco para sua hiléia? Dos cangatís minúsculos aos gigantescos pirarucus? Boas-noites às vitórias-régias?
Direi, talvez, que às margens do pequenino Acaraú, também sonham almas boas com a verde esperança de um mundo melhor. O que o poeta prega na sua poesia, nas suas peregrinações de andarilho por este imenso país. Por onde leva, nas tábuas toscas das últimas árvores tombadas, os preceitos para nortear, com justiça, sensatez e sabedoria, os destinos do bicho-homem, o que traduziu no seu belíssimo Os estatutos do homem.
Pela presença contínua de sua poesia, Amadeu Thiago de Mello é hoje meu tipo inesquecível.
CHARADAS NOVÍSSIMAS (Colaboração de Adjemir Paiva)
> A goma tem origem numa PROTEÍNA. 2-2
> O germânio causa grave infecção bucal no ZIGOTO. 1-2
> Ainda é capaz, o velho DESTRO. 2-3
> Tem raiva de Deus, o CARNÍVORO. 2-1
> Naquele lugar, só sob pressão, hastearam a BANDEIRA. 1-2
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