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E o Gilson escapou fedendo, literalmente!

Tarcísio Matos


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19/07/2008 14:56

Causo I
Cogitava de vida tranqüila, enfim, ao chegar a Fortaleza, fugido. Após a peixeirada que dera nos vazios do tal Romualdo, em São Paulo, o desassombrado Gilson nunca mais tivera sossego. A facada, bem verdade, fora em legítima defesa. Senão vejamos.

Findo o expediente, Gilson toma seis lapadas de cana perto da firma (era dia de pagamento) e pega o beco, a pé. Nas biqueiras de casa, é abordado por três elementos, todos armados de faca. "Passa a bufunfa, vagabundo!"

Cabra disposto do Icó, pediu viessem pegar. O pau canta. Dos dois primeiros, nosso habilidoso personagem toma as armas e manda fazerem carreira. Com o terceiro (o dito Romualdo), a coisa é grave. Além de desarmar, Gilson fere o meliante. Sangue escorre. Gilson corre.

O bandido, ali mesmo da vizinhança do dileto icoense, promete vingança. A família de Gilson vive momentos de pânico. Quer vir de muda pra capital cearense. Com o apurado, ele compra casa de quintal grande no Pici.

Julga estar livre das perseguições do algoz d'outrora. Tá empregado. E mantém costume trazido do sertão: levantar-se pontualmente às 4h30 da madrugada pra defecar no terreiro, mesmo tendo banheiro em casa.

Numa dessas ele se dá mal. Romualdo está em Fortaleza. Descobriu onde sua vítima se esconde - sabedor da mania do desafeto da descomida matinal. Revólver na cintura, estaciona a bicicleta no meio fio - são 3 da madrugada.

Pula o muro, está tocaiado no quintal de quem fora furado nos vazios; aguarda a hora pra lavar a honra. Lá vem Gilson, de cueca (escuro ainda). Acocora-se, evacua em paz. É interrompido por Romualdo, escondido detrás da touceira de capim santo. O matador 'grita baixo':

- Agora eu te mato, seu bosta!!!
- Respeite ao menos um homem cagando, cara!
Que nada! Pá, pá, pá, pá! Quatro tiros disparados: um na canela, um no antebraço (tentou livrar a cabeça), um no peito direito, um de raspão no esquerdo balouçante. Os outros bateram catolé. E Romualdo se evade.
Gilson, mergulhado no próprio sangue, caído na quentura da própria obra. Família e vizinhos ao redor do corpo. Ambulância da Assistência no local. Paramédico avalia atento. Esposa pergunta consternada:
- Morreu, doutor? Gilsim meu marido morreu?
- Não, minha senhora. Ele escapou... fedendo!!!

Causo II
Carla Papudinha, dona de barzinho em São Gerardo, não é do tipo de andar se rindo pra cliente. Faz exatamente o contrário do que pede Phillip Kotler. Criou jeito próprio de vender. Vai acabar dirigindo o Pão de Açúcar.

O estabelecimento é irremediavelmente lotado. Quanto mais se afoba com a freguesia, maior a freqüência. Outro dia, três sedentos rapazes se abancaram e pediram logo três cervejas. Cinco minutos depois, mais três. Vinte minutos adiante, outras três e mais duas e mais uma. Carla se invoca:

- Chega, negrada! Tome aqui a conta e vão simbora! Pensam que vão acabar meu estoque, é?

Outra vez, um senhor perguntou por tira-gosto. Carla falou do feijão verde e ele respondeu não: fazia peidar. Sugeriu bife acebolado e o cliente retrucou: cebola dava mau hálito. Papudinha diz que tem avoante assada.

- Não, senhora! Se o Ibama pega, hein?
De saco cheio das lorotas do cliente fresco, Carla fresca:
- O senhor não quer uma papinha, não, hein?

EFEITO DOMINÓ

BILHETE AO FAUSTO NILO

Meu caro Fausto, quando cheguei a Fortaleza, em dezembro 1958, o Cine São Luiz era recém inaugurado e eu só ouvia notícia do seu suntuoso décor, pois que não tinha, como você, paletó para freqüentá-lo e apreciar toda aquela beleza de perto. Contentava-me com o belíssimo visual do cartaz externo com o nome "São Luiz" manuscrito em gás neon, verde e vermelho.

Muitas vezes, após traçar uma nutritiva bananada no Pedão do Abrigo Central ou um pastel com caldo de cana na Leão do Sul, sentava nos batentes da Coluna da Hora, ainda de concreto, a espiar o operário que trocava as letras azuis e vermelhas que anunciavam o novo filme com seus protagonistas e horário de exibição. Era época dos épicos: Ben Hur, Os Dez Mandamentos, Cleópatra, El Cid; Charlton Heston imperando, Elisabeth Taylor e Sophia Loren, se não talento, mostravam ousados decotes nos volumosos peitos.

A praça, que você bem soube reeditar, ainda ostentava seus fícus benjamins em forma de pirâmides e luminosos à gás neon, um enorme charuto Suerdieck e uísque Drury's. A esquina do pecado (Ouvidor com Major Facundo) era, além de profana, um ponto azarado. Ali funcionaram Broadway, Rouvanni, Museu de Cera Itinerante, Escol e loja de discos. Se os comerciantes embaixo amargavam insucessos, no segundo andar uma confraria de advogados tocava a vida em descontraída boêmia.

Carros de praça cadilacs importados, você lembra, eram apanhados ali pertinho. O posto Pará em frente ao Sul América, o Vitória embaixo do Taco de Ouro e o Mazine nas proximidades da Galeria Grécia. E os músicos faziam ponto na calçada norte da Praça do Ferreira para negociar suas apresentações em festas dançantes ou outros eventos sociais. Ali, cruzava-se com Moreira Filho, Canhoto, Ivanildo, Ivan, Alberto Mota, Paulo de Tarso e até Luiz Assunção. Em meio a entusiasmadas discussões das pacatas torcidas do Ceará, Fortaleza e Ferroviário; ou inflamados discursos de políticos, quando rebrilhava a lâmina do rabo-de-galo do minerador Mário Rosal.

Os trilhos dos bondes ainda não haviam sido retirados, prefects, anglias e citroëns rolavam vagarosamente sobre a pavimentação de concreto e, lá em cima, numa noite escura, subia montado numa motocicleta sobre um arame estendido do chão ao topo do Savanah, um artista de circo húngaro, ou talvez polaco. O Excelsior era um hotel decadente e os escombros do antigo Majestic olhavam o tempo através de suas janelas abertas pela fúria das labaredas do incêndio que o destruiu.

Outro cinema ficava na praça, o Moderno, que exibia, numa tela pequena, as aventuras do galante Zorro e do Durango Kid, quando não, as impagáveis chanchadas da Atlântida e as caipiradas do Mazaroppi.

No lado leste da praça, depois do Rotisserie, então fechado, havia uma série de armazéns de tecidos, papelaria e farmácia. No outro lado, Pasteur e Oswaldo Cruz manipulavam fórmulas miraculosas para pano preto e outras mazelas corporais, enquanto fiéis balanças conferiam o pavor da obesidade.

A malandragem fazia ponto naquele quadrilátero, a vida da cidade era repassada nos fins de tarde sobre os alongados bancos de madeira mas, meu caro Fausto, segundo Severiano, cinema ainda era a maior diversão.
Audifax Rios
audifaxrios@yahoo.com.br


CHARADAS NOVÍSSIMAS (Colaboração de Francisco Thomaz)

> Enxergam a pessoa de modo IMPETUOSO. 2-2
> Os pássaros não têm tempo para BISBILHOTICE. 3-3
> Tom de pele POLIDA. 1-1
> Observa o provedor em frente ao caso ESPANTOSO. 2-1-2
> Decifrei haver quem suporta a CIÊNCIA DAS LETRAS. 1-1-3

Respostas Anteriores:
MEDíOCRE - COLOSSAL- MONARCA - ESTIRAMENTO - TAGARELADO


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