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O leão da Metro

Tarcísio Matos


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17/05/2008 14:30


Quarenta horas na vida da Nêga MaDucarmo é chafurdo (resenha, fulerage, leriado) puro. A patroa, dona Noêmia, tece punhos de rede num tamborete da cozinha, enquanto a empregada 'perpara' o de cumê.
Bodejam filosofares ao comando da boa dona da casa.

- Adivinha quem construiu uma casa ali no Beco da Hospedaria?
- Adivinho não, madinha. Quem foi o cristão?
- Sanoca! Casa enorme, um despautério, bem no final duma rua... Rua que ainda não tem nenhuma casa construída, MaDucarmo!
- É bom que ele economiza bom-dia.

Na outra semana, num começo de tarde, MaDucarmo dá um pulinho na vizinha, dra. Elvira, clínica geral. "Ô de casa!" A médica, ela mesma, graças a Deus, atende à criada intrépida, que não tolera empalhar os outros.
- Descuipe lhe aperrear, dotora! É que eu queria que a senhora me passasse um remédio.
- Pois não, MaDucarmo. Que é que tu tem?
- Corrimento.
- Então vá na farmácia e (escrevendo num pedacinho de papel) compre esse aqui, ó. Na volta eu te digo como é o uso.

E lá pra Zé de Alencar se foi a gorda, preta e velha empregada de dona Noêmia. Duas horas mais tarde está de volta; mostra o medicamento a dra. Elvira, que alerta:
- Prestenção, MaDucarmo! Isso aqui é um óvulo, não é um supositório, viu?
- Vi, dotora!
- Você não deve colocar no lugar onde coloca o supositório, entendeu?
- Entendi sim! A senhora tará pensando que eu sou Mobral mijatorial, é?
Período de férias escolares, a casa de dona Noêmia (um quase sítio em pleno bairro de São Gerardo), recebe sempre filhos e netos e amigos deles às rumas. MaDucarmo arrumando o quarto de hóspedes.

Já lá estava uma amiga espilicute da neta Vandira. A visita, arrastando quatro malas, logo tratou de colocar todos os seus perfumes, cremes, loções, lenços de papel, produtos de maquiagem, sombras, bases e lápis de sobrancelha sobre a pia do banheiro.

MaDucarmo vê a arrumação, chama a patroa e dispara:
- Sabe o que é isso, madinha? Arrumação de cutruvia, marmota de fuampa, iscandilice de bruaca! Complexo raparigal!
Mas aí vem a notícia do sinistro: neto de dona Noêmia, Manelzão das Quengas (primo de Inácio Rapaz Véi), enfiou o pé numa fossa e desmastreou tudo que era osso. Ficará meses imobilizado, gesso no comprido da perna.

Ele era muito alto (1m92cm), e pesava mais de 120 quilos. A cama era pequena pra ele, pois. Calor insuportável e Manelzão, na casa da avó pra melhores cuidados, deita-se num colchonete enorme, no chão do quarto.
MaDucarmo vendo a cena não agüenta:
- Dona Noêmia, ande cá ver uma coisa! Manelzão, seu neto, é ver o leão da Metro falido.


EFEITO DOMINÓ

O FIEL DA BALANÇA


- Como é que vão as coisas, Nonato?
- Tá tudo um quilo e duzentos!
Era assim que Nonato Bate Asas achava o mundo, tão bom que dava um contrapeso. Apesar da penúria em que vivia, tanto em casa quanto na rua, que era o quartel general de seu trabalho indefinido.

Em casa, um sufoco. O dinheiro dos biscates mal dava para a danada da cachaça. Ainda bem que a Raimunda lavava roupa e fazia faxina. Senão, como comprar o leite dos meninos? Leite, roupa e livros. Eram cinco, os meninos, uma escadinha. Maicon, Richarlisson, Pamella, Majorie e Expedito. O último, assim destoando, porque promessa. Não fosse o santo ter atendido tão prontamente e o parto teria sido um fiasco. Caixão e vela preta pro anjinho e pra mulher. Mas Deus foi servido e abaixo dele o doutor Ezequiel lá do SUS.

E assim o Nonato ia tirando. Diante da patota, tudo um quilo e duzentos. E mal entrava na cota de dinheiro para a meiota porque acompanhava o Deus Tá Vendo ao violão. Dolores Sierra, tu és para mim a senhora do engenho.

- Tu tá misturando tudo, ô Nonato!
- Tá tudo um quilo e duzentos!
Vidinha desgraçada, todo dia a mesma música, o mesmo papo de futebol. E o Ferrim, que não soube comemorar os oitentanos nem na terceirona? E o Coríntians, que vergonha, na segunda?
- O navio apitou, paguei a despesa e a história se encerra, o caminho de casa estava largo demais, o Nonato Bate Asas atalhando frango. Em casa lavaria os pés, tomaria um copo d'água e iria pra cama chafurdar com a Raimunda.
No outro dia a coitada da mulher, madrugada ainda, partia para o leito do Siqueira com um trouxa de roupa na cabeça. Faturar o necessário para comprar um peso de carne que na panela só havia o arroz escoteiro. Já o Nonato só bateria o ponto lá pras dez. Tudo quilo e duzentos.
Audifax Rios
audifaxrios@yahoo.com.br



CHARADAS NOVÍSSIMAS (Colaboração de Adjemir Paiva)

O cofre guarda um vínculo SECRETO. 2-1
A primazia do religioso é ser METROPOLITA. 2-2
Ela oferece a borra da FLOR. 1-2
A flor é um estudo ou um TRATADO SOBRE AS FLORES. 2-3
Numa só nota musical tem-se um impresso e um CONTO DE FICÇÃO. 1-2

Respostas Anteriores:
VENCEDOR - PROVETA - NOTURNO - CARICATURISTA - RELENTO


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