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Ao Pé da Letra

"Honrarás pai e mãe!"

Pasquale Cipro Neto
15 Nov 2008 - 14h34min

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Infelizmente, em muitas escolas do Brasil a conversa sobre os verbos ainda se limita à ladainha do "eu tal, tu tal, ele tal etc.". Nem sempre se explica a relação entre tempos primitivos e derivados, quase não se fala do valor de cada modo verbal, não se traduz a nomenclatura de tempos e modos, não se trata dos vários valores de um mesmo tempo verbal etc.

Por incrível que pareça, o presente do indicativo, por exemplo, muitas vezes ainda é definido como "o tempo verbal que indica o fato que ocorre no momento da fala". A levar a sério essa definição, só quem tem o dom da fala articulada durante o sono poderia conjugar a primeira pessoa do singular do presente do indicativo de "dormir". À noite, ninguém poderia conjugar o presente de "almoçar" para informar o horário em que costuma recarregar as baterias para a labuta da tarde.

Indicar o fato que ocorre no momento da fala é apenas um dos valores do presente do indicativo ("Estou com sono"). Aliás, é seu valor específico, isto é, aquele que lhe justifica o nome. Esse tempo pode indicar ação rotineira ("Trabalho das 9h às 18h"), fato passado ("Em 1968, o governo militar decreta o AI-5 e..."), verdades universais ("Todo homem é mortal") etc.

O pretérito mais-que-perfeito talvez seja o mais maltratado por esse ensino limitado. Pomposo, o nome (mais-que-perfeito!) faz muita gente pensar que se trata de tempo verbal reservado a alguns mortais especiais, quase imortais, semideuses. O mais-que-perfeito tem o nome que tem simplesmente porque indica fato mais velho que o perfeito, anterior ao perfeito. Este, por sua vez, indica fato acabado, concluído, feito completamente, ou seja, perfeito (do latim perfectu = "feito completamente", "feito até o fim").

Em "Quando ela percebeu que ele desaparecera, ficou desesperada", a forma "percebeu" indica ação passada, completamente feita, isto é, perfeita; "desaparecera" também indica ação passada, e anterior à que é expressa por "percebeu", ou seja, anterior à que é expressa pelo perfeito. O fato é, pois, mais-que-perfeito, mais velho que o expresso pelo perfeito. Vale lembrar que o mais-que-perfeito apresenta forma simples e forma composta. "Desaparecera" equivale a "tinha (ou havia) desaparecido" ("Quando ela percebeu que ele tinha/havia desaparecido, ficou desesperada").

Os valores periféricos do mais-que-perfeito são muitos. Há algum tempo, a Fuvest incluiu em seu vestibular uma questão sobre esse tempo, baseada na canção O Estrangeiro, de Caetano Veloso, que, por sinal, eu analisara no Nossa Língua Portuguesa, programa apresentado por mim na TV Cultura. "E eu, menos a conhecera mais a amara?", pergunta o poeta. A banca pediu aos candidatos que reescrevessem a frase de Caetano "usando as formas que o mais-que-perfeito substituiu". "Conhecera" equivale a "conhecesse"; "amara" equivale a "amaria": "E eu, (se) menos a conhecesse, mais a amaria?".

Vale a pena (re)lembrar Álvares de Azevedo ("Não me batera tanto amor no peito/ Se eu morresse amanhã de manhã!", em que "batera", do pretérito mais-que-perfeito, equivale a "bateria", do futuro do pretérito) e aquela memorável cantiga portuguesa ("Se houvera quem me ensinara...", em que "houvera" e "ensinara" equivalem a "houvesse" e "ensinasse", respectivamente).

O futuro também toma as suas palmadas. Definido simploriamente como "o tempo que indica fato que ocorre depois da fala", o futuro do presente tem vários outros valores. Um deles é o de indicar ordem, comando ("Honrarás pai e mãe!"). Muitas pessoas, no entanto, dependendo da situação, preferem levar o futuro ao pé da letra. Certamente é esse o caso de alguns administradores públicos, que penduram na cabeceira da cama um conhecido mandamento ("Não furtarás!"). Ao acordarem, olham imediatamente para a tabuleta. Lá está a ordem, convenientemente interpretada ao pé da letra. Como a frase está no futuro, só vale para depois, para amanhã. Hoje pode. E lá se vai mais uma gorda fatia do suor dos brasileiros. Ah, esse pessoal que não sabe fugir do literal...

Até a próxima. Um forte abraço.

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