Ao Pé da Letra
Generalidades (10)
Pasquale Cipro Neto
08 Nov 2008 - 17h36min
Vamos para a décima e última rodada de respostas às perguntas dos leitores. A primeira questão vem de um leitor, que quer saber como se conjuga o verbo "reaver" na terceira pessoa do singular do presente do indicativo. O motivo da pergunta é um título jornalístico ("Empresa reavê terreno..."), que o leitor achou "esquisito".
No padrão formal da língua, a forma "reavê" não existe. O verbo "reaver" (que significa "recuperar a posse", "possuir outra vez", "retomar") é defectivo, ou seja, não tem conjugação completa. No presente do indicativo, ocorrem apenas duas formas: "nós reavemos", "vós reaveis". No presente do subjuntivo, nenhuma forma é conjugada, já que esse tempo deriva da primeira pessoa do singular do presente do indicativo.
Moral da história: frases como "Desejo que você reavenha/reaveja o cargo" ou "Empresa reavê terreno" não encontram abrigo no registro culto da língua. Que fazer? Usar formas de verbos sinônimos: "Desejo que você recupere o cargo"; "Empresa recupera terreno".
É bom lembrar que nos pretéritos e nos futuros (do indicativo e do subjuntivo) a conjugação do verbo "reaver" é completa e baseada na do verbo "haver", do qual deriva. No pretérito perfeito do indicativo, por exemplo, temos "eu reouve, tu reouveste, ele reouve, nós reouvemos..."; no imperfeito do subjuntivo, temos "se eu reouvesse, se tu reouvesses, se ele reouvesse, se nós reouvéssemos..."; no futuro do subjuntivo, temos "quando eu reouver, quando tu reouveres, quando ele reouver, quando nós reouvermos...".
A segunda questão vem de um leitor, que quer saber por que se diz "Voltei do Guarujá", "Vou para o Guarujá", "Venho do Guarujá", isto é, por que se usa o artigo antes do nome dessa cidade paulista.
Diferentemente do que muita gente pensa, Guarujá não é um bairro ou distrito de Santos, mas um município, autônomo. A presença do artigo no uso comum talvez se deva ao fato de se tratar a cidade como se ela fosse um bairro da vizinha Santos (na verdade, parece que um dia Guarujá foi mesmo bairro ou distrito de Santos). Ocorre a mesma situação com Praia Grande, que também é município, e não bairro ou distrito. É comum que se diga "Comprei uma casa na Praia Grande", "Gosto da Praia Grande" etc.
Normalmente, não se usa artigo antes de nomes de cidades. Não se usa "na" ou "da", por exemplo, antes de Campinas, Teresina, Manaus, Ribeirão Preto, Fortaleza, Santos, Belém, Santo André etc. Nos dicionários, no verbete "guarujaense", encontra-se "natural ou habitante de Guarujá"; "relativo a Guarujá". Em "praia-grandense" ou "praiano", dependendo do dicionário, encontra-se "relativo a Praia Grande"; "natural ou habitante de Praia Grande". Na prática, porém, isso não pega. O povo diz mesmo "na Praia Grande", "no Guarujá" etc. É bom lembrar, no entanto, que os nomes oficiais desses dois municípios não incluem o artigo, como se constata nos sites das duas cidades ("Prefeitura de Guarujá" e "Prefeitura de Praia Grande").
A terceira questão vem de uma leitora, que quer saber se é correto o que se vê no início de muitas cartas ("Venho por meio desta..."). A leitora pergunta também como seria o plural: "vimos" ou "viemos"?
A expressão "Venho por meio desta" é consagrada, apesar de um tanto pleonástica, já que é óbvio que a comunicação se faz por meio daquela carta. E o plural de "venho"? É bom lembrar que "venho" é forma da primeira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo "vir". Nesse tempo, temos as seguintes flexões: "eu venho, tu vens, ele vem, nós vimos, vós vindes, eles vêm". Como se vê, o plural de "venho" é "vimos" ("Vimos por meio desta...").
O problema é que "vimos" também é forma do verbo "ver" (no pretérito perfeito), o que pode causar alguma confusão. Em "Vimos seu primo ontem", a forma "vimos" é do pretérito perfeito do verbo "ver"; em "Vimos por meio desta", a flexão "vimos" é do presente do verbo "vir". A forma "viemos" é da primeira do singular do pretérito perfeito do verbo "vir": "Vim aqui ontem"; "Viemos aqui ontem".
Como "combinamos", esta é a décima e última coluna da série "Generalidades", que certamente voltará no ano que vem.
Até domingo. Um forte abraço.
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09/11/2008
22:13
Que excelente é a coluna do prof. Pasquale.
Fernando Cidrão
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