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Ao Pé da Letra

Generalidades (9)

Pasquale Cipro Neto
01 Nov 2008 - 18h06min

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Vamos para a nona e penúltima rodada de respostas às perguntas dos leitores. A primeira questão vem de uma leitora, que quer saber se a forma correta é "Estou a par do assunto" ou "Estou ao par do assunto".

Apesar de alguns registros de "estar a par de" e "estar ao par de" como equivalentes (com o sentido de "estar ao corrente de", "estar informado de"), a expressão mais usada, recomendada e abonada é "a par de". O dicionário Aurélio diz que "ao par de" é "forma menos preferível"; o Dicionário Prático de Regência Nominal, de Celso Luft, dá as duas expressões como equivalentes. O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, e o de Caldas Aulete, entre outros, só abonam a expressão "estar a par do assunto". Quem não quer discussão fica com "estar a par do assunto", expressão que ninguém condena e todos registram. Quem gosta de uma boa briga pode ficar com "ao par de", mas...

A segunda questão vem de um leitor, que diz ter sido contestado por um colega ("que conhece bem nosso idioma") por causa deste trecho: "Em que pesem os méritos do diretor...". O leitor diz que vê nessa passagem sentido equivalente ao de "Apesar dos méritos do diretor". Um colega dele, no entanto, diz que a forma correta é "Em que pese aos méritos do diretor...".

O leitor e seu colega discutiram por nada, já que as duas formas são possíveis. Na construção "Em que pesem os méritos do diretor", a forma "pesem" concorda com "méritos". O sentido é exatamente o descrito pelo leitor. Nesse caso, o verbo "pesar" significa "ter peso", "ter importância". Na construção sugerida pelo colega do leitor, o verbo "pesar" é usado com o sentido de "causar incômodo", "causar mágoa", "causar mal-estar" e, justamente pelo sentido que tem, é mais comum que se empregue assim com pessoas, e não com coisas: "Em que pese aos munícipes, a prefeitura não embargará a obra". Não faltam, no entanto, registros de exemplos clássicos do emprego dessa expressão com coisas, como se vê neste trecho de ninguém menos do que Euclides da Cunha: "Em que pese à sua literatura alarmante, eram dados verdadeiros". O fragmento é de Os Sertões, citado pelo querido colega Odilon Soares Leme, em seu belo livro Tirando Dúvidas de Português (Editora Ática).

Moral da história: quando se refere a pessoas, a expressão "em que pese" é fixa e seguida da preposição "a" ("Em que pese a seus inúmeros fãs, o cantor não poderá fazer show extra"); quando se refere a coisas, é mais comum que seja empregada com a flexão do verbo ("Em que pesem as manifestações dos torcedores em favor de sua reintegração, o jogador continuará afastado"). Como se vê, a forma sugerida pelo colega do leitor é aceitável, mas a construção mais comum e registrada é a outra.

A terceira questão de hoje vem de uma leitora, que quer saber se, por ser mulher, deve dizer "muito obrigada". Deve, sim. A expressão de agradecimento em português vem da idéia de assumir obrigações para com quem fez o favor, a gentileza. É por isso que um homem diz "obrigado" a quem quer que seja e uma mulher diz "obrigada", independentemente do sexo da pessoa à qual ela se dirige. Em outras palavras, o homem se confessa obrigado a retribuir a gentileza recebida; a mulher, por sua vez, declara-se obrigada a retribuir o favor que lhe fizeram.

A última questão de hoje vem de um leitor, que se diz preocupado com frases como "Ele tinha chego" ou "Eu tinha chego". "Será que isso já é possível?", pergunta ele. Em termos de língua padrão, essas construções não são adequadas, mas o fato tem explicação. De início, convém dizer que na língua culta o verbo "chegar" só tem uma forma de particípio ("chegado"), portanto nesse registro lingüístico só ocorrem as construções "Eu tinha chegado", "Ele tinha chegado" etc. E como se explica, então, o uso ou o surgimento de construções como "Ele tinha chego"? Há verbos que têm duas formas de particípio, uma das quais é igual à primeira pessoa do singular do presente do indicativo. É o caso de "salvar" ("salvado" e "salvo"), "expulsar" ("expulsado" e "expulso"), "aceitar" ("aceitado" e "aceito") etc. Seguindo esse modelo, o falante chega a "chego" como forma de particípio, que (é bom deixar claro) não encontra registro na língua padrão.

Até domingo. Um forte abraço.

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