Ao Pé da Letra
Ao pé da letra
Generalidades (8)
Pasquale Cipro Neto
25 Out 2008 - 18h10min
Vamos para a oitava rodada de respostas às perguntas dos leitores. A primeira questão vem de um leitor, que menciona uma passagem de um dos primeiros poemas de Drummond ("A tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos"). O leitor quer saber por que foi empregada a forma "houvesse", no singular, se são tantos os desejos, no plural. "Como é mesmo essa concordância?", pergunta ele.
O que temos nesse caso é o verbo "haver", empregado com o sentido de "existir". Se o verbo tivesse sido conjugado no presente do indicativo, teria ocorrido o emprego de "há" ("Há tantos desejos"). Como se sabe, "há" é da terceira pessoa do singular; a terceira do plural é "hão". Quando usado com o sentido de "existir" ou com o de "ocorrer", "acontecer", o verbo "haver" não é flexionado no plural, independentemente do tempo em que é conjugado. Em outras palavras, isso significa que o que vale no presente vale no pretérito e no futuro.
Moral da história: assim como se diz "Há tantos desejos" (e não "Hão tantos desejos"), ou seja, emprega-se o verbo "haver" no singular, diz-se "Havia tantos desejos" (e não "Haviam..."), "Houve tantos desejos" (e não "Houveram..."), "Haverá tantos desejos" (e não "Haverão...") e assim por diante. Foi por isso que Drummond escreveu "...não houvesse tantos desejos", em vez de "...não houvessem tantos desejos".
Convém insistir num ponto: trata-se de uma particularidade do verbo "haver". Seus sinônimos não têm nenhuma relação com a história. Se trocássemos "haver" por "existir", teríamos "existissem" ("...se não existissem tantos desejos"). O verbo "existir" sempre concorda com o seu sujeito. O "diferente" é o verbo "haver", quando usado com o sentido de "existir" ou de "ocorrer".
Uma pergunta que volta e meia os leitores fazem é esta: "Então não existe 'houveram', não existe 'haverão'?". Essas formas existem, sim. Para empregá-las, basta que o verbo "haver" não seja sinônimo de "existir" nem de "ocorrer": "Eles ainda não haviam terminado a tarefa"; "Nossos atletas haverão de conseguir a medalha"; "Os policiais não se houveram bem na missão". No último caso, "haver" significa "sair-se", "comportar-se" ("Os policiais não se saíram bem na missão").
A segunda questão de hoje vem de uma leitora, que quer saber se é correta uma frase que viu num texto publicitário: "Mande as bactérias lamber sabão". "Isso está correto, ou o verbo deveria ficar no plural ('lamberem')?", pergunta a leitora.
A frase da publicidade é boa, e também seria boa com a forma "lamberem". A flexão do infinitivo, como se sabe, é mar de águas agitadas e às vezes traiçoeiras. Com verbos como "mandar", "fazer" e "deixar" (tecnicamente chamados de "causativos"), a flexão do infinitivo é optativa, quando seu sujeito é um substantivo: "Deixe as garotas entrar" (ou "entrarem"); "Faça os rapazes estudar" (ou "estudarem"); "Mande as bactérias lamber sabão" (ou "lamberem").
Quando vem antes do substantivo que funciona como sujeito, muitas vezes o infinitivo não é flexionado ("Faça trabalhar os burocratas"; "Deixe entrar os meninos"; "Deixai vir a mim as criancinhas"), mas a flexão é possível ("Faça trabalharem os burocratas" etc.). Quando o substantivo é substituído por um pronome, não ocorre a flexão: "Faça-os trabalhar"; "Deixe-os entrar"; "Mande-as lamber sabão".
A última questão vem de uma leitora, que quer saber se é correto dizer "Os milhões de doses distribuídas...". Essa frase é boa, sim. "Milhão" é palavra masculina e, por isso, exige que o artigo e os demais termos antecedentes sejam masculinos: "Os dois milhões de doses", "Os vinte milhões de mulheres", "Os muitos milhões de pessoas", "Os vários milhões de libras que o governo britânico...". Convém lembrar que ninguém diria que o governo britânico gastou "duas milhões de libras". Assim como se diz "dois milhões de libras" ou "os milhões de libras", diz-se "os milhões de obras". O que vale para "milhão" vale para "milhar", que também é palavra masculina: "Os milhares de pessoas que..." (e não "As milhares de pessoas que...").
Cabe lembrar que, no uso moderno, sobretudo na imprensa, é cada vez mais forte a tendência de tornar neutras essas palavras ("milhão" e "milhar") e, conseqüentemente, levar em conta o substantivo quantificado para estabelecer a concordância. É por isso que se ouvem e lêem com freqüência construções como "as milhões de pessoas", "as milhares de mulheres" etc. Gramáticas e dicionários, no entanto, ainda não legitimam esse uso.
Até domingo. Um forte abraço.
O que temos nesse caso é o verbo "haver", empregado com o sentido de "existir". Se o verbo tivesse sido conjugado no presente do indicativo, teria ocorrido o emprego de "há" ("Há tantos desejos"). Como se sabe, "há" é da terceira pessoa do singular; a terceira do plural é "hão". Quando usado com o sentido de "existir" ou com o de "ocorrer", "acontecer", o verbo "haver" não é flexionado no plural, independentemente do tempo em que é conjugado. Em outras palavras, isso significa que o que vale no presente vale no pretérito e no futuro.
Moral da história: assim como se diz "Há tantos desejos" (e não "Hão tantos desejos"), ou seja, emprega-se o verbo "haver" no singular, diz-se "Havia tantos desejos" (e não "Haviam..."), "Houve tantos desejos" (e não "Houveram..."), "Haverá tantos desejos" (e não "Haverão...") e assim por diante. Foi por isso que Drummond escreveu "...não houvesse tantos desejos", em vez de "...não houvessem tantos desejos".
Convém insistir num ponto: trata-se de uma particularidade do verbo "haver". Seus sinônimos não têm nenhuma relação com a história. Se trocássemos "haver" por "existir", teríamos "existissem" ("...se não existissem tantos desejos"). O verbo "existir" sempre concorda com o seu sujeito. O "diferente" é o verbo "haver", quando usado com o sentido de "existir" ou de "ocorrer".
Uma pergunta que volta e meia os leitores fazem é esta: "Então não existe 'houveram', não existe 'haverão'?". Essas formas existem, sim. Para empregá-las, basta que o verbo "haver" não seja sinônimo de "existir" nem de "ocorrer": "Eles ainda não haviam terminado a tarefa"; "Nossos atletas haverão de conseguir a medalha"; "Os policiais não se houveram bem na missão". No último caso, "haver" significa "sair-se", "comportar-se" ("Os policiais não se saíram bem na missão").
A segunda questão de hoje vem de uma leitora, que quer saber se é correta uma frase que viu num texto publicitário: "Mande as bactérias lamber sabão". "Isso está correto, ou o verbo deveria ficar no plural ('lamberem')?", pergunta a leitora.
A frase da publicidade é boa, e também seria boa com a forma "lamberem". A flexão do infinitivo, como se sabe, é mar de águas agitadas e às vezes traiçoeiras. Com verbos como "mandar", "fazer" e "deixar" (tecnicamente chamados de "causativos"), a flexão do infinitivo é optativa, quando seu sujeito é um substantivo: "Deixe as garotas entrar" (ou "entrarem"); "Faça os rapazes estudar" (ou "estudarem"); "Mande as bactérias lamber sabão" (ou "lamberem").
Quando vem antes do substantivo que funciona como sujeito, muitas vezes o infinitivo não é flexionado ("Faça trabalhar os burocratas"; "Deixe entrar os meninos"; "Deixai vir a mim as criancinhas"), mas a flexão é possível ("Faça trabalharem os burocratas" etc.). Quando o substantivo é substituído por um pronome, não ocorre a flexão: "Faça-os trabalhar"; "Deixe-os entrar"; "Mande-as lamber sabão".
A última questão vem de uma leitora, que quer saber se é correto dizer "Os milhões de doses distribuídas...". Essa frase é boa, sim. "Milhão" é palavra masculina e, por isso, exige que o artigo e os demais termos antecedentes sejam masculinos: "Os dois milhões de doses", "Os vinte milhões de mulheres", "Os muitos milhões de pessoas", "Os vários milhões de libras que o governo britânico...". Convém lembrar que ninguém diria que o governo britânico gastou "duas milhões de libras". Assim como se diz "dois milhões de libras" ou "os milhões de libras", diz-se "os milhões de obras". O que vale para "milhão" vale para "milhar", que também é palavra masculina: "Os milhares de pessoas que..." (e não "As milhares de pessoas que...").
Cabe lembrar que, no uso moderno, sobretudo na imprensa, é cada vez mais forte a tendência de tornar neutras essas palavras ("milhão" e "milhar") e, conseqüentemente, levar em conta o substantivo quantificado para estabelecer a concordância. É por isso que se ouvem e lêem com freqüência construções como "as milhões de pessoas", "as milhares de mulheres" etc. Gramáticas e dicionários, no entanto, ainda não legitimam esse uso.
Até domingo. Um forte abraço.
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