Ao Pé da Letra
Ao pé da letra
Generalidades (7)
Pasquale Cipro Neto
18 Out 2008 - 17h22min
De acordo com os dicionários, guias de uso, gramáticas e manuais, essa flexão de "intermediar" não é correta. Pode parecer estranho, mas a forma considerada correta é "intermedeia". Esse verbo segue a conjugação de "mediar", do qual deriva. "Mediar" é um dos cinco verbos que formam o famoso "MARIO" (mediar, ansiar, remediar, incendiar, odiar). Todos são irregulares. No presente do indicativo de "mediar", temos "eu medeio, tu medeias, ele medeia, nós mediamos, vós mediais, eles medeiam". Os demais verbos apresentam as mesmas terminações: "eu anseio, tu anseias, ele anseia..."; "eu remedeio, tu remedeias, ele remedeia..."; "eu incendeio, tu incendeias, ele incendeia..."; "eu odeio, tu odeias, ele odeia...". Assim, a forma registrada nos dicionários, gramáticas etc. é "intermedeia": "...que sua agência, fundada há mais de dez anos, intermedeia negócios imobiliários...".
A segunda questão vem de uma leitora, que pergunta se é correto dizer que determinadas teorias são "afins". É correto, sim. O adjetivo "afins" é o plural de "afim", que significa "semelhante", "que tem afinidade". Não se pode confundir "afim" com "a fim", que faz parte das locuções "a fim de" e "a fim de que", que indicam finalidade: "Viajou para o Rio, a fim de que pudesse resolver o problema"; "Irei até lá a fim de ajudá-lo a solucionar a questão". No caso das "teorias afins", o adjetivo "afins" foi empregado adequadamente. Indica idéia de semelhança, afinidade (as teorias têm algo em comum, são semelhantes).
A terceira questão vem de uma leitora, que quer saber se os atores das diversas novelas que estão em cartaz acertam quando dizem "Eu lhe amo". No padrão formal da língua (ou na "língua exemplar", como define o querido professor Bechara), não se usa o pronome "lhe" com a função de objeto direto. No exemplo citado pela leitora, registra-se o emprego do verbo "amar", que não pede preposição (se alguém ama, ama alguém: "Amo você", "Amo esse poeta" etc.). Assim, no padrão formal da língua, os pronomes da terceira pessoa do singular que podem complementar o verbo "amar" são "o" e "a" ("Eu a amo"; "Eu o amo").
É preciso lembrar, no entanto, que a língua falada tem seus próprios mecanismos, que nem sempre coincidem com os do padrão formal da língua. Em várias regiões do Brasil, é normal o emprego do pronome "lhe" com qualquer tipo de verbo. No Nordeste, por exemplo, são mais do que comuns construções como "Eu lhe vejo", "Quero lhe abraçar", "Eu lhe adoro" etc.
O importante, como sempre digo, é a adequação. Num texto escrito, formal, não se emprega "Eu lhe amo" ou "Eu lhe abraço", formas inadequadas a esse registro. Em termos de fala, sobretudo quando se trata de personagem, a coisa muda. Deve-se levar em conta fundamentalmente o universo em que se dá o diálogo. Numa novela ou num filme, colocar na voz de um paulista algo como "Eu lhe amo" não cola, assim como também não cola colocar na boca de um carioca ou baiano algo como "Não me vai pegar uma gripe, belô".
Moral da história: como sempre, é preciso levar em conta a situação, o contexto. Em se tratando do padrão formal da língua (sobretudo na modalidade escrita formal), substitui-se "Eu lhe amo" por "Eu o amo" (ou "Eu a amo"); em se tratando da oralidade, respeita-se o uso local.
A quarta e última questão de hoje vem de uma leitora, que quer saber se, quando se preenche um cheque, deve-se grafar o nome da nossa moeda corrente com inicial maiúscula ou minúscula.
Não se grafa nome de moeda com inicial maiúscula. Real, dólar, libra, peso, iene, franco, entre outros, não são nomes próprios, portanto não se grafam com maiúscula. Grafa-se, pois, "real" e "reais", com inicial minúscula, sem receio de errar. Convém lembrar que nos cheques também se coloca a data e, conseqüentemente, o mês, que também não se grafa com maiúscula: "Salvador, 19 de outubro de 2008".
Até domingo. Um forte abraço.
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20/10/2008
07:32
Acho que essa regra não se aplica ao exemplo, pois verdes mares não é uma palavra composta, mas um simples adjetivo seguido de um substantivo, que poderia simplesmente ser escrita na forma direta, ou seja, mares verdes. No caso de verde-abacate, o substantivo abacate está determinando qual é o tipo de verde, tendo em vista haver várias tonalidades.
Aluisio
18/10/2008
21:11
Prezado Professor Pasquale; Aproveitando esse espaço no jornal O Povo aos domingos, /Ao Pé da letra/, quero deixar registrado nessa página minha dúvida quanto ao plural da palavra composta VERDES-MARES. Com base no livro de gramática /CURSO PRÁTICO DE GRAMÁTICA/ - Ernani Terra- Ed.Scipione 4ª edição de 2004, o autor se refere a uma de suas regras do plural dos adjetivos compostos, que /se o último elemento for um substantivo, o adjetivo composto mantém no plural a mesma forma do singular/ Exs: Camisa verde-abacate > Camisas verde-abacate; já em GRAMÁTICA- de Faracco & Moura-Editora Ática, 13ª edição de 1994, também concorda com a regra em afirmar que /São invariáveis os adjetivos referentes a cores, quando o segundo elemento da composição é um substantivo/ Exs: vestido azul-pavão >vestidos azul-pavão, blusa verde-abacate > blusas verde-abacate; e para finalizar, na GRAMÁTICA DA LINGUA PORTUGUESA- de Celso Ferreira da Cunha- 11ª edição/2ª tiragem, ano de 1986 (FAE-Fundação de Assistência ao Estudante-Ministério da Educação, predominam as mesmas regras citadas nos livros anteriores com exemplos idênticos: blusas amarelo-canário, vestidos azul-petróleo, uniformes verde-oliva. E para enfatizar, eis um trecho dos versos de Gonçalves Dias : /São uns olhos verdes,verdes, Uns olhos de verde-mar...(G.Dias, PCPE, 386. ) Se o senhor se dispuser de tempo e lê esse comentário, ficarei agradecido e aguardo um posicionamento. Grato;
Ricardo Câmara
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