Professor Pasquale
20/09/2008 19:50
E vamos para a terceira rodada de respostas aos leitores. A primeira questão de hoje se refere ao verbo "intervir". Diz um leitor: "Gostaria de saber como se conjuga o verbo 'intervir' na terceira pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo. Um de meus amigos disse 'O Estado interviu' e outro o corrigiu imediatamente, dizendo que a forma certa é 'interveio'. Por favor, solucione esta minha dúvida".
A razão está com o segundo personagem da história. O verbo "intervir" deriva de "vir" e segue sua conjugação, em todos os tempos e modos. No presente do indicativo, por exemplo, temos "eu venho/intervenho", "tu vens/intervéns", "ele vem/intervém" etc. No pretérito perfeito, "eu vim/intervim", "tu vieste/intervieste", "ele veio/interveio" etc. No imperfeito do subjuntivo, "se eu viesse/interviesse", "se tu viesses/interviesses", "se ele viesse/interviesse" etc. No futuro do subjuntivo, "quando eu vier/intervier", "quando tu vieres/intervieres", "quando ele vier/intervier" etc. No caso da frase que motivou a "disputa", a forma correta é "o Estado interveio".
A segunda questão vem de uma leitora, que diz o seguinte: "Temos uma escola de línguas e estamos preparando um cartaz para enviarmos a algumas empresas. Temos uma dúvida em relação aos dizeres do cartaz, que será afixado nas empresas: 'Oferecemos aos funcionários DESTA ou DESSA empresa...'?"
Um dos valores do pronome demonstrativo "este" (e de suas flexões) é designar pessoa ou coisa próxima. Assim, quem tem um livro nas mãos e se refere a ele diz "este livro". Quem fala da casa em que está diz "esta casa". Como a faixa será afixada na empresa a cujos funcionários se dirige a mensagem, deve-se empregar "desta": "Oferecemos aos funcionários desta empresa...".
A terceira questão vem de um leitor, que quer saber se é confiável uma explicação que viu em uma gramática, cujo nome ele não cita. O autor afirma que "toa" é um cabo com que uma embarcação reboca outra. Dessa acepção concreta se teria chegado à expressão "à toa", que significa "sem determinação própria", "a esmo", "irrefletidamente".
O dicionário Aurélio, o Michaelis Melhoramentos, o de Antenor Nascentes e o de Caldas Aulete, entre outros, informam que a palavra "toa" vem do inglês "tow". Todos dão como primeiro sentido de "toa" o de cabo ou corda com que se reboca uma embarcação, e incluem a expressão "à toa" no verbete "toa", o que parece confirmar a tese citada pela gramática consultada pelo leitor.
É bom lembrar que, quando tem valor adverbial, a expressão "à toa" se grafa sem hífen, ou seja, em duas palavras. Esse valor se verifica quando a expressão significa "a esmo", "sem razão", "irrefletidamente": "Gosto de andar à toa"; "À tarde, ela passa horas à toa"; "Ele briga à toa, com quem quer que seja". Quando significa "desprezível", "sem importância", "irrefletido", ou seja, quando tem valor de adjetivo, a palavra "à-toa" é composta, grafada com hífen: "Foi um gesto à-toa"; "É um homem à-toa", "Cantou uma música à-toa". Convém salientar que, nesse caso, a expressão "à-toa" não varia, isto é, tem plural e singular iguais: "Um filmezinho à-toa"; "Vários filmezinhos à-toa".
A quarta e última questão de hoje vem de uma leitora, que pergunta se são corretas as grafias que se adotam no extenso dos cheques ("hum", "treis", "deiz" etc.) ou se elas só valem nessa situação.
Em termos de língua padrão, essas grafias são incorretas. As formas corretas dos numerais citados pela leitora são "um", "três" e "dez". Não se sabe ao certo o motivo pelo qual muitas pessoas adotam essas grafias. Há quem diga que elas decorrem da tentativa de evitar fraudes (o "um" sem "h" poderia virar "cem", por exemplo), mas há quem diga que elas decorrem de mero desconhecimento da forma padrão. Convém lembrar que o emprego de "um" antes de "mil" ou "milhão" é inútil (ninguém compra um mil latas de óleo, compra?). Por fim, vale lembrar que não existe a grafia "cincoenta" (a forma correta é "cinqüenta", com trema, até a chegada da reforma ortográfica).
Até domingo. Um forte abraço.