Pasquale Cipro Neto
30/08/2008 16:41
Na semana passada, trocamos dois dedos de prosa sobre os verbos terminados em "-ear". Vimos que, nos dois presentes (o do indicativo e o do subjuntivo), esses verbos ganham um "i" depois do radical em quatro flexões (eu, tu, ele, eles). Para relembrar, tomemos como exemplo a conjugação de "patentear": "eu patenteio, tu patenteias, ele patenteia, nós patenteamos, vós patenteais, eles patenteiam" (presente do indicativo); "que eu patenteie, que tu patenteies, que ele patenteie, que nós patenteemos, que vós patenteeis, que eles patenteiem" (presente do subjuntivo).
Na primeira e na segunda do plural ("nós" e "vós") dos tempos que acabamos de ver e em todas as flexões dos demais tempos, os verbos terminados em "-ear" não apresentam a letra "i" depois do radical: "eu patenteava", "nós patenteávamos", "eles patenteavam", "eu patenteei", "ele patenteou", "eles patentearam", "eu patentearei", "eles patentearão", "se eu patenteasse", "se nós patenteássemos", "se eles patenteassem" etc.
Posto isso, vamos passar para os verbos terminados em "-iar". Talvez fosse bom poder dizer que são todos regulares, mas... Mas isso fica para daqui a pouco. Bem, na verdade, quase todos são regulares. Vamos tomar como exemplo "renunciar": "eu renuncio", "ele renuncia", "eles renunciam", "eu renunciava", "nós renunciávamos", "eles renunciavam", "que eu renuncie", "que eles renunciem", "se eu renunciasse", "se nós renunciássemos" etc.
A esta altura, você talvez esteja pensando no "quase" do parágrafo anterior ("quase todos são regulares"). Pois bem. Há alguns verbos terminados em "-iar" que não seguem a conjugação regular. Cinco deles ("mediar", "ansiar", "remediar", "incendiar", "odiar") permitem que se forme o anagrama "MARIO". Nas variedades formais da língua, esses verbos não apresentam flexões como as de "anunciar" ou as de qualquer verbo regular terminado em "-iar", fato confirmado pelos registros das gramáticas e dos dicionários brasileiros, que geralmente dão esses cinco verbos como irregulares.
E o que ocorre com eles? Esses verbos acabam aproximando-se da conjugação dos verbos terminados em "-ear", já que, no presente do indicativo e no do subjuntivo, apresentam quatro flexões (eu, tu, ele, eles) com o grupo "ei". Vamos tomar como exemplo o verbo "odiar": "eu odeio, tu odeias, ele odeia, nós odiamos, vós odiais, eles odeiam" (presente do indicativo); "que eu odeie, que tu odeies, que ele odeie, que nós odiemos, que vós odieis, que eles odeiem" (presente do subjuntivo).
Vejamos como ficam as flexões de "mediar", que segue os passos de "odiar": "eu medeio, tu medeias, ele medeia, nós mediamos, vós mediais, eles medeiam" (presente do indicativo); "que eu medeie, que tu medeies, que ele medeie, que nós mediemos..." (presente do subjuntivo). As flexões de "incendiar" trilham o mesmo caminho: "eu incendeio", "ele incendeia", "nós incendiamos", "eles incendeiam", "que eu incendeie", "que nós incendiemos", "que eles incendeiem" etc.
Pouco usadas na língua oral, as flexões de "mediar" (e de "intermediar", que deriva de "mediar") e "remediar" às vezes surpreendem os leitores de jornais e revistas quando se vêem títulos como "Banqueiro intermedeia negócios ilícitos" ou "Lula medeia divergência entre Morales e seus opositores", nos quais se verifica o emprego das formas verbais abonadas pelos dicionários e gramáticas. Essa surpresa revela o fato de que o falante talvez tendesse a conjugar esses três verbos como se fossem regulares ("Fulano intermedia..."; "Lula media pendência...").
Talvez convenha ser taxativo: em se tratando das variedades formais da língua, as formas consagradas são mesmo "medeio", "intermedeio", "medeia", "intermedeia", "remedeio", "remedeia" etc. Lançado há algum tempo, o "Dicionário de Usos do Português do Brasil", do eminente professor Francisco S. Borba, registra este exemplo, extraído de livro técnico: "O colorido variará com a distância que medeia entre a placa de vidro e a fonte luminosa".
Para encerrar, é preciso lembrar que em Portugal são mais de seis os verbos terminados em "-iar" cujas flexões sofrem influência das dos verbos que terminam em "-ear". Lá, não é raro encontrarmos, no uso oral e no literário, formas como "premeia" e "negoceia". No Brasil, nos registros formais, não ocorrem formas como essas ou como a popular "vareia".
Até domingo. Um forte abraço.