Pasquale Cipro Neto
09/08/2008 13:37
Na semana passada, discutimos a forma verbal "vamos", que, como vimos, é da primeira pessoa do plural de dois tempos: presente do indicativo e presente do subjuntivo. Na verdade, essa forma também pode fazer parte das flexões do imperativo (negativo e afirmativo), mas isso é outra história. Escrevi o último texto para responder a uma leitora, que deve estar esperando a conversa sobre o "A não ser que fôssemos...".
Vamos lá, pois. De início, é bom lembrar que "fôssemos" é do pretérito imperfeito do subjuntivo. Calma! Nada de susto com os nomes técnicos. Como vimos na semana passada, o subjuntivo é o modo da dúvida, da possibilidade, da suposição, da probabilidade etc. Se apanhássemos o verbo "pôr" nesse tempo e na mesma pessoa (primeira do plural), teríamos "puséssemos" ("A não ser que puséssemos..."). Se apanhássemos "levar", teríamos "levássemos" ("A não ser que levássemos...").
Que diferença há entre "A não ser que façamos..." e "A não ser que fizéssemos...", ou entre "A não ser que cantemos..." e "A não ser que cantássemos..."? Essas quatro formas verbais estão conjugadas no modo subjuntivo, mas não no mesmo tempo. "Façamos" e "cantemos" estão no presente do subjuntivo; "fizéssemos" e "cantássemos" estão no pretérito imperfeito do subjuntivo. A diferença, portanto, está no tempo e não no modo.
Num primeiro momento, é preciso lembrar a correlação verbal, ou seja, a necessidade de sintonizar os tempos verbais. Quando se diz "Haverá jogo se os árbitros não fizerem greve", por exemplo, a forma "fizerem" (do futuro do subjuntivo) correlaciona-se com "haverá" (do futuro do presente do indicativo). A troca de "haverá" por "haveria" (do futuro do pretérito do indicativo) acarretaria a troca de "fizerem" por "fizessem" (do pretérito imperfeito do subjuntivo): "Haveria jogo se os árbitros não fizessem greve".
Como se vê, a opção entre "A não ser que cantássemos" e "A não ser que cantemos", por exemplo, deve levar em conta o restante da frase. Vejamos estes dois casos: "Ela não conseguirá pagar as contas, a não ser que lhe adiantemos uma parte do salário"; "Ela não conseguiria pagar as contas, a não ser que lhe adiantássemos uma parte do salário". Percebeu?
Para que seja possível dizer "A não ser que nós fôssemos", é necessário fazer a correta correlação de "fôssemos" com os demais verbos do período: "É inútil ir, já que não chegaríamos a tempo, a não ser que fôssemos de avião". A troca de "chegaríamos" por "chegaremos" exige a substituição de "fôssemos" por "vamos": "É inútil ir, já que não chegaremos a tempo, a não ser que vamos de avião". Bem, como vimos na última semana, é inegável o desconforto causado pelo emprego de "vamos" com valor subjuntivo. Em linguagem familiar, é quase certa a substituição de "a não ser que vamos de avião" por "a não ser que a gente vá de avião".
É importante observar que, na língua oral, o falante costuma queimar etapas. Alguém que dissesse "Não chegaríamos a tempo", por exemplo, poderia rapidamente mudar o plano de observação dos fatos e, desprezando os rigores da correlação verbal, dizer "A não ser que nós vamos de avião" (ou "A não ser que a gente vá de avião"). Com isso, o falante deixaria clara a súbita percepção da possibilidade de concretização do ato de ir. Na língua escrita formal, é bom dizer, esses processos são mais apegados às convenções.
Guardou o nome, caro leitor? Vamos repetir: "correlação verbal". Na verdade, como sempre digo, o nome não é o mais importante. Importante mesmo é compreender os mecanismos e usá-los adequadamente.
Até domingo. Um forte abraço.