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Ao Pé da Letra

AO PÉ DA LETRA

"A não ser que nós vamos..."

Pasquale Cipro Neto


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02/08/2008 12:13

Uma leitora faz esta pergunta: "Quando dizemos 'A não ser que nós façamos' ou 'A não ser que nós vendamos' ou ainda 'A não ser que nós cantemos', fica tudo certo, não é? E se for com o verbo 'ir'? Está correto dizer 'A não ser que nós vamos'? Caso esteja, qual a diferença entre essa forma e 'A não ser que nós fôssemos'? Eu acho esquisitíssimo... Então, você pode me ajudar?".

A pergunta da leitora é muito interessante e oportuna. Para responder, serei obrigado a empregar alguma terminologia específica. Vamos lá. Que diferença existe entre "fazemos" e "façamos" em frases como "Nós fazemos tudo com muito cuidado" e "Querem que nós façamos tudo com muito cuidado"? A diferença está no modo verbal. "Fazemos" é forma do presente do indicativo; "façamos" é do presente do subjuntivo.

"Façamos" é da primeira pessoa do plural do presente do subjuntivo do verbo "fazer" ("que eu faça, que tu faças, que ele faça, que nós façamos..."); "fazemos" é da primeira pessoa do plural do presente do indicativo ("eu faço, tu fazes, ele faz, nós fazemos...").

Quando se diz "A não ser que façamos", coloca-se o ato de fazer no plano da hipótese, da dúvida, da possibilidade, da suposição, da especulação, da probabilidade etc. Esse é o valor do modo subjuntivo. Quando se diz "Fazemos o possível e o impossível por nossos filhos", não há hipótese ou especulação. O ato expresso pela forma "fazemos", conjugada no presente do indicativo, é posto no plano da realidade, e não no da hipótese. No caso, há garantia, certeza, afirmação, confirmação etc.

Como se vê, as flexões do presente do subjuntivo são diferentes (na forma e no valor) das do presente do indicativo. Vejamos mais exemplos: "Ela quer que eu cante lá, mas eu só canto aqui"; "Quero que ouças as músicas de Caetano e as de Tom, mas tu só ouves os horrores americanóides". Parece clara a diferença entre "que eu cante" e "eu canto", entre "que tu ouças" e "tu ouves", não?

Pois bem. Por que, então, há esquisitice (e há mesmo!) em "A não ser que nós vamos..."? Porque o verbo "ir" é uma espécie de patinho feio dessa história. A primeira pessoa do plural do presente do indicativo do verbo "ir" é "nós vamos" ("eu vou, tu vais, ele vai, nós vamos..."). A primeira pessoa do plural do presente do subjuntivo do verbo "ir" é... Também é "vamos" ("que eu vá, que tu vás, que ele vá, que nós vamos...").

Como a forma do indicativo é igual à do subjuntivo (o que só ocorre com o verbo "ir"), é inevitável a esquisitice. Quando se diz "Não há solução, a não ser que nós vamos lá agora", fica-se com a nítida impressão de que algo não vai bem. Tem-se a mesma impressão que se tem quando se ouve algo como "Não há solução, a não ser que nós fazemos algo imediatamente", ou "Não há solução, a não ser que nós estamos em dois lugares ao mesmo tempo" etc.

Agora, uma surpresa. A primeira pessoa do plural do presente do indicativo do verbo "ir" pode ser "vamos" ou "imos". Sim, nós imos! Alguém teria coragem de usar essa forma hoje? Essa flexão não é mais corrente, seja na língua oral, seja na escrita. Uma das últimas edições do Aurélio (Novo Aurélio Século XXI, lançada em 1999), no entanto, faz este registro: "Da forma imos, equivalente de vamos, registre-se este exemplo de autor moderno: 'Nós imos todas contigo/ À busca dele se queres.' (João de Deus, Campos de Flores)". É bom lembrar que verbos que apresentam mais de uma forma para um mesmo caso são classificados como abundantes.

Se a forma "vamos" fosse exclusiva do presente do subjuntivo, certamente não haveria esquisitice em "A não ser que nós vamos...". Não é à toa que as pessoas preferem trocar "nós" por "a gente" quando é necessário empregar o presente do subjuntivo: "A não ser que a gente vá...". Bem ou mal, o falante sempre acha um caminho.

Em tempo: a segunda pessoa do plural do presente do indicativo do verbo "ir" é "ides"; a do presente do subjuntivo é "vades": "Vós sempre ides pelo caminho do imediatismo; porém continuo sugerindo que vades pelo da reflexão". Impensável na língua viva de hoje, a frase pode perfeitamente aparecer em textos literários clássicos ou religiosos. O caso de "A não ser que fôssemos..." fica para outro dia.

Até domingo. Um forte abraço.


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