Pasquale Cipro neto
19/07/2008 14:56
"Participe da campanha contra a impunidade do Jornal X." Não se trata de uma campanha de concorrentes do tal jornal, interessados em levá-lo "às barras dos tribunais", para que finalmente se ponha fim à impunidade dele. Essa frase fez parte de uma peça publicitária de um conhecido diário brasileiro. Ao pé da letra, é possível entender que era mais do que chegada a hora de punir o jornal.
O problema básico dessa oração está na disposição, na ordem de seus termos. A preposição "de" ("do" = "de" + "o") subordina o termo "do Jornal X" a "impunidade" e o transforma em alvo ou beneficiário do processo expresso por esse nome. Uma simples reordenação resolveria o problema: "Participe da campanha do Jornal X contra a impunidade". Agora, o nome "campanha" rege as preposições "de" (para introduzir o agente do processo - o Jornal X) e "contra" (para introduzir o alvo do processo - a impunidade).
Na escola, muitas vezes os professores se limitam a fazer a garotada decorar o rol de preposições ("a", "ante", "até", "após", "com", "contra", "de", "desde", "durante", "em", "entre", "mediante", "por", "para", "sem", "sob" etc.). Discutir o uso, que é bom, nada! O resultado é a construção de frases mirabolantes. Veja esta, que estava na praça central de uma cidade paulista (e era assinada pela Prefeitura local): "Participe da campanha contra os ratos da Prefeitura". Consciência pesada? Confissão de culpa? Como se vê, a frase do jornal fez escola.
Prefeitura lembra eleições. Certa vez, numa eleição municipal, uma empresa de São Paulo anunciou "Camisetas para políticos em promoção". Políticos em promoção? Assim, na cara dura? Se num pleito municipal é desse jeito, o que pode ocorrer numa eleição como a de 2010? Quanto valerá um deputado? E um senador?
Não faltam exemplos desse tipo de problema. Uma dessas revistas de empresas que vendem pelo correio andou anunciando um incrível "massageador para pés de madeira". Há alguns anos, a TV Cultura transmitiu o "Campeonato de Futebol Japonês". Mais recentemente, um jornal publicou (na primeira página) este título: "Ministério Público apura contas fora do país de Maluf". O dinheiro do homem é tanto que lhe permite fundar um país?
A lista de esquisitices é interminável, e, muitas vezes, o problema está na má ordenação dos termos ou na má disposição da preposição. Não custa lembrar que as preposições são palavras relacionais, isto é, estabelecem relação. Em "massageador para pés de madeira", a preposição "de" subordina "madeira" a "pés". Deveria, na verdade, subordinar "madeira" a "massageador" ("massageador de madeira para pés"). Em "Campeonato de Futebol Japonês", o problema reside na ordenação dos termos. É imperativo colocar o adjetivo "japonês" depois de "campeonato", e não de "futebol", para que se qualifique aquele substantivo, e não este. Bem, depois de algumas rodadas, a TV Cultura fez a devida alteração e passou a transmitir o "Campeonato Japonês de Futebol".
Em português a ordem não é rígida, o que não significa que em língua vale a máxima matemática segundo a qual "a ordem dos fatores não altera o produto" (na adição e na multiplicação). Quando não altera radicalmente o sentido, uma outra ordem pode determinar maior ou menor grau de ênfase sobre alguns termos. Em "Os deputados deixaram o plenário frustrados", por exemplo, o termo "frustrados" indica basicamente o estado dos deputados no momento em que deixaram o plenário, mas em "Frustrados, os deputados deixaram o plenário" o termo "frustrados" passa a ter forte matiz causal. Colocado no início da frase, esse adjetivo parece assumir dois papéis: indica o estado dos deputados e a causa de sua saída do plenário.
As inversões são também um ótimo recurso quando se quer dar clareza e economia ao texto. Frases como "O disco, que foi gravado no início da década, sumiu das lojas há muito tempo" tornam-se mais claras, sintéticas e elegantes com uma simples inversão: "Gravado no início da década, o disco sumiu das lojas há muito tempo". O mínimo que se consegue é economizar um "que" e aproximar o sujeito ("o disco") do verbo ("sumiu").
Até domingo. Um forte abraço.