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Ao Pé da Letra

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As "pequenezes" de Pessoa

Pasquele Cipro Neto


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12/07/2008 15:04

Em seu último vestibular, a Unesp (Universidade Estadual Paulista) incluiu na prova de português um profundo e intemporal texto de Fernando Pessoa (Crônica da Vida que Passa), que começa com estas palavras: "Às vezes, quando penso nos homens célebres, sinto por eles toda a tristeza da celebridade. A celebridade é um plebeísmo. Por isso deve ferir uma alma delicada. É um plebeísmo porque estar em evidência, ser olhado por todos inflige a uma criatura delicada uma sensação de parentesco exterior com as criaturas que armam escândalo nas ruas, que gesticulam e falam alto nas praças. O homem que se torna célebre fica sem vida íntima: tornam-se de vidro as paredes da sua vida doméstica; é sempre como se fosse excessivo o seu traje; e aquelas suas mínimas ações - ridiculamente humanas às vezes - que ele quereria invisíveis, côa-as a lente da celebridade para espetaculosas pequenezes, com cuja evidência a sua alma se estraga ou se enfastia. É preciso ser muito grosseiro para se poder ser célebre à vontade".

O genial Fernando Pessoa escreveu isso num tempo em que não havia a grande "média", como dizem os nossos irmãos portugueses (nós dizemos "mídia", forma baseada na pronúncia inglesa - convém lembrar que a palavra vem do latim). Quando fala das "criaturas que armam escândalo nas ruas, que gesticulam e falam alto nas praças", Pessoa parece antever o que hoje ocorre com os pobres - paupérrimos - de espírito que falam alto ao celular em qualquer canto, expondo suas vísceras ao mundo ("tornam-se de vidro as paredes de sua vida doméstica", diz o monumental Pessoa). Imagine se ele vivesse hoje, sob os zurros dos big brothers da vida...

Posto isso, aproveito o belo texto de Pessoa para retomar um dos pontos vistos na semana passada, quando falamos das terminações "-oso" (que ocorre em adjetivos que contêm a idéia de abundância, como "chuvoso", "perigoso", "fogoso", "horroroso" etc.) e "-ês" (que ocorre em adjetivos pátrios, como "português", "norueguês", "calabrês", "milanês" etc.). O leitor certamente notou que Pessoa empregou a palavra "pequenezes" (na passagem "espetaculosas pequenezes"). "Pequenezes" é simplesmente o plural de "pequenez", substantivo abstrato que significa "qualidade de pequeno". Temos aí outro procedimento claramente sistematizado na ortografia da língua: substantivos abstratos formados a partir do acréscimo de "-ez" ou "-eza" são grafados com "z" ("estupidez", "sensatez", "escassez", "fraqueza", "pureza", "limpeza" etc.).

Em outro escrito do próprio Fernando Pessoa, encontra-se a conhecidíssima passagem "Tudo vale a pena se a alma não é pequena", que equivale a algo como "Tudo vale a pena se a pequenez da alma não prevalece". A pequenez, sempre é bom repetir, é a "qualidade de pequeno".

O plural de "pequenez" é feito como o de qualquer palavra portuguesa terminada em "z", como "perdiz", "luz", "raiz", "juiz", "meretriz", "giz", "feliz", "capaz", "mordaz", "feroz" etc. E como é mesmo que se faz o plural dessas palavras? Com o acréscimo de "es" ("perdizes", "luzes", "raízes", "juízes", "meretrizes", "gizes", "felizes", "capazes", "mordazes", "ferozes"). Moral da história: o plural de "pequenez" é mesmo "pequenezes", assim como o de "gravidez" é... Ai, ai, ai... Só pode ser "gravidezes": "Suas duas gravidezes foram muito tranqüilas e tiveram final feliz".

Bem, voltando às palavras "pequenez" e "pequenezes", talvez seja bom lembrar que o simpático cãozinho que muitos dos cinqüentões tivemos na infância (e que misteriosamente desapareceu - por onde anda?) se chama "pequinês", com "s" e com circunflexo. Esse cão é pequinês porque vem de Pequim, capital da China. O plural de "pequinês", portanto, é "pequineses", com "s" e sem acento ("Tivemos vários pequineses durante a infância").

Até domingo. Um forte abraço.


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