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Ao Pé da Letra

ao pé da letra

Por falar em "doloso"...

Pasquale Cipro Neto


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05/07/2008 13:44


Na semana passada, troquei com os leitores dois dedos de prosa sobre o significado da palavra "doloso" ou, mais especificamente, da expressão "crime doloso", que, como vimos, volta e meia é mal definida nos meios jornalísticos.

Não custa repetir: o crime doloso não pode ser definido ou explicado pura e simplesmente como "aquele em que há intenção de matar". O dolo não pressupõe apenas a intenção; pressupõe também a consciência do risco de produzir resultados ilícitos. O crime é doloso quando existe dolo (cuja pronúncia erudita é "dólo"), isto é, quando o agente quer diretamente o resultado ilícito ou assume o risco de produzi-lo.

Relembrados esses pontos, aproveito a questão para agora trocar dois dedos de prosa sobre a terminação "-oso", presente não só em "doloso", mas também em inúmeras palavras da nossa língua. De origem latina, o sufixo "-oso" designa idéia de "abundância", "intensidade" etc. De fato, quando se diz, por exemplo, que o dia foi chuvoso, quer dizer-se que o dia foi cheio de chuva; quando se diz que um lugar é perigoso, quer dizer-se que esse lugar é repleto de perigo.

O caro leitor certamente notou que a terminação "-oso" se escreve com "s" (e não com "z", como de vez em quando se vê por aí), o que obviamente vale também para o feminino ("-osa"). Embora não seja nada difícil entender por que algumas pessoas trocam esse "s" por "z", cumpre-me lembrar que há uma sistematização nesse caso (e em outros).

Que outros casos? O dos adjetivos pátrios, por exemplo, que, quando terminam em "-ês" ou "-esa", são grafados com "s". Moral da história: grafam-se com "s" palavras como "calabrês", "milanês", "chinês", "irlandês", "holandês", "libanês" etc. (e seus respectivos femininos, que, é bom lembrar, não recebem acento: "calabresa", "milanesa", "chinesa", "irlandesa", "holandesa", "libanesa" etc.). Não é rara a ocorrência de "z" em palavras como essas, muitas vezes em cartazes públicos, nomes de estabelecimentos comerciais, produtos industriais etc.

Durante muito tempo, uma empresa do Rio de Janeiro (a UFE - União Fabril Exportadora) produziu o sabão "portuguez", do qual os que temos mais de 50 nos lembramos muito bem. O nome vinha em baixo-relevo no sabão, que era verde e tinha pintas negras, salvo engano. Pois bem. A grafia "portuguez" (com "z") era a padrão na primeira metade do século passado. Não é por acaso que nas publicações antigas o antológico poema Mar Português, de Fernando Pessoa, aparece como "Mar Portuguez". Certamente a fábrica de sabão grafava o nome do produto com "z" para preservar a memória, a tradição etc. A fabricação do sabão começou em 1928. Outro caso que sobrevive é o de um fumo para cachimbos, cujo nome é "irlandez", caso semelhante ao de "portuguez".

Que fique claro: na língua padrão, os adjetivos pátrios terminados em "-ês" ou "-esa" são grafados com "s", e não com "z". Razões comerciais etc. podem justificar a manutenção de grafias antigas, mas, na comunicação geral, não há motivo para o desvio gráfico. Não há motivo, por exemplo, para que restaurantes sirvam comida "chineza", pizza "calabreza" ou bife à "milaneza". Fuja deles!

Mas voltemos à terminação "-oso". Se de "chuva" se faz "chuvoso", de "carinho" se faz "carinhoso" e de "perigo" se faz "perigoso", que se faz de "saudade", "bondade" e "idade"? Já percebeu aonde quero chegar, não? Se acrescentássemos o sufixo "-oso" a essas palavras, teríamos, respectivamente, "saudadoso", "bondadoso" e "idadoso", certo? Teríamos, mas não temos. O que temos você certamente sabe: "saudoso", "bondoso", "idoso", que resultam da eliminação da sílaba "da" do interior das primeiras formas. Esse fenômeno tem nome (e meio assustador): "haplologia". Nessa palavra, que vem do grego, encontra-se o elemento "haplo-", que significa "simples", o que explica tudo, não? Quem foi que disse que a grafia e a forma das palavras não têm lá seus encantos?

Até domingo. Um forte abraço.


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