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Ao Pé da Letra

PROFESSOR PASQUALE

"Danço eu, dança você"


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14/06/2008 15:48

Num dos mais memoráveis discos de Paulinho da Viola (A Dança da Solidão, lançado em 1972), encontra-se a delicadíssima Dança da Solidão, composta pelo próprio Paulinho. Antes que alguém pergunte, não houve engano, não. O disco se chama A Dança da Solidão, mas a canção não tem o artigo "a" no título.

O lado B desse antológico bolachão (hoje disponível em CD) era aberto justamente pela pungente Dança da Solidão, em cuja letra se encontram estes versos: "Desilusão, desilusão,/ Danço eu, dança você/ Na dança da solidão". Talvez eu me engane, mas acho que em 1972 o verbo "dançar" ainda não tinha o sentido que assumiu na gíria há algum tempo, o de "dar-se mal, fracassar". Se já o tinha, a dupla leitura do verbo "dançar" parece enriquecer ainda mais a letra da canção de Paulinho.

Peço-lhe licença para (re)lembrar que, há algum tempo, a Fuvest elaborou uma questão a partir deste texto: "Para se candidatar a um emprego, o recém-formado compete com levas de executivos de altíssimo gabarito, desempregados. O jovem, sem experiência, literalmente dança". Os examinadores pediram aos candidatos que comentassem a (in)adequação do emprego do advérbio "literalmente".

Esse advérbio é da mesma família da palavra "letra" (que vem do latim "littera"). "Literalmente" significa "ao pé da letra", ou seja, "empregado com o sentido literal, original". Se você ler com atenção o texto da questão da Fuvest, notará que o jovem não dança "literalmente", já que não se põe a bailar ou saltitar quando ou porque não consegue emprego. Na verdade, "literalmente" parece ter sido usado como um elemento de reforço, como se significasse algo como "realmente", "para valer", "sem dó nem piedade" etc. ("o jovem literalmente dança" = "o jovem realmente se dá mal" etc.).

O caro leitor se lembra da deputada-dançarina? Aquela da dança da pizza, lembra? Se fizermos uma ponte com o texto da questão da Fuvest, poderemos dizer que, em "A deputada dançou no plenário", o verbo "dançar" foi usado em seu sentido literal, mas, nas primeiras eleições de que participou depois do triste espetáculo, a deputada dançou (agora com significado giriesco...).

Antes que me esqueça, é bom dizer que "literalmente" também pode ter o sentido de "com as mesmas letras", "com as mesmas palavras", caso em que equivale à expressão latina "ipsis litteris" ("Transcreveu literalmente o discurso do presidente").

Reflexão
Mas voltemos ao texto de Paulinho. O leitor certamente notou que o compositor se valeu da concordância prescrita pela norma padrão da língua, ou seja, fez o verbo concordar com o sujeito (posposto, nos dois casos: "eu", em "danço eu"; "você", em "dança você"). Como se sabe, na língua do dia-a-dia a tendência é que, em casos como esses, o verbo fique na terceira pessoa do singular, fato que certamente merece análise detida - nada que se limite à simplória ótica do certo ou errado. Mas isso fica para outra ocasião.

Em relação ao procedimento de Paulinho, parece lícito afirmar que a variação do verbo ("danço"/"dança") e sua conseqüente adequação ao sujeito posposto ("Danço eu, dança você") parece acentuar a idéia da solidão de cada "dançarino", isto é, a idéia de que cada um dança sozinho, embora os dois participem da mesma dança.

O caso permite outra boa reflexão. Quem foi que disse que "eu" + "você" é sempre igual a "nós"? Seria possível substituir a construção "Danço eu, dança você, na dança da solidão" por "Dançamos nós, na dança da solidão" ou por "Dançamos eu e você, na dança da solidão"? Que me diz, caro leitor?

Para encerrar, lembro que as gramáticas dizem que, quando o sujeito composto é posposto, ou seja, ocorre depois do verbo, é possível adotar dois procedimentos: a) verbo no plural, na pessoa gramatical "mais baixa" ("Dançamos eu e você" ou "Dançamos você e eu"); b) verbo em concordância com o núcleo mais próximo ("Danço eu e você"; "Dança você e eu").

Parece claro que, para traduzir a idéia da letra de Paulinho, a melhor construção é mesmo a que ele adotou, não acha?

Até domingo. Um forte abraço.


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