24/05/2008 15:50
Num dos tantos programas de TV em que se trata de futebol, dos lances mais importantes da rodada, das possibilidades deste ou daquele time nesta ou naquela competição, um jornalista disse que “qualquer dos times brasileiros podem levantar a taça”. O profissional se referia aos times brasileiros que ainda participavam da Copa Libertadores da América (São Paulo, Fluminense e Santos, naquele momento). A concordância que se verifica em “podem” (“Qualquer dos times brasileiros podem...”) é aceitável, em se tratando das variedades formais da língua? Se não é, por que não é? E qual seria o motivo que leva redatores ou falantes a optar por essa flexão verbal?
Essas perguntas são cada vez mais comuns nas provas de português de vestibulares e concursos públicos realizados no país. Nesses exames, não se costuma perguntar pura e simplesmente se tal coisa funciona assim ou assado, se é certa ou errada etc. Pede-se ao candidato que localize em determinado texto uma forma inadequada à linguagem empregada, que diga qual é a forma que deveria ter sido escolhida e que aponte o provável motivo do desvio, ou seja, do emprego da forma inadequada.
No caso da construção empregada pelo jornalista que falava dos nossos times, a forma verbal “podem”, da terceira do plural, é inadequada; deveria ser substituída por “pode” (“Qualquer dos times brasileiros pode...”). A terceira pessoa do singular (“pode”) é imposta pelo núcleo do sujeito (“qualquer”, pronome indefinido singular).
E de onde os falantes tiram a forma “podem”? Não é difícil explicar. Quando o núcleo do sujeito está no singular, mas é seguido de especificadores flexionados no plural, é normal que o falante se deixe influenciar pela proximidade do verbo com esses elementos e acabe por flexioná-lo no plural. Nesses casos, quanto maior é a distância entre o verbo e o núcleo do sujeito, maior é a probabilidade de o falante se deixar influenciar pelo plural dos especificadores, se existirem e se forem muitos. Isso explica por que dizemos ou lemos frases (inadequadas) como “Nas grandes cidades da Europa, o valor dos pequenos apartamentos centrais superam os...” ou “Nenhum dos ministros ouvidos pelos jornalistas quiseram confirmar a notícia”.
Na frase que inicia a nossa conversa, o jornalista fez o verbo (“podem”) concordar com “times brasileiros”. No exemplo visto, a distância entre o verbo e o núcleo do sujeito não é tão grande assim, o que comprova a força do fator “proximidade”. Deve-se notar também que, na frase em questão, talvez haja outro fator que induz o falante a empregar o verbo no plural: a idéia contida na expressão “qualquer dos times brasileiros”. Já sabe o que ocorre? Em última análise, informa-se que os três times podem, o que talvez seja a causa do emprego do verbo no plural, em concordância com a idéia expressa. Bem, depois de vistos os possíveis motivos do emprego da opção inadequada à linguagem padrão, convém dizer que, nesses casos, a concordância não é feita com a idéia, mas com a forma: “Qualquer dos times brasileiros pode levantar a taça”.
A situação dos redatores normalmente é mais confortável do que a do falante. Na fala, é tudo muito rápido. Na escrita, a questão muda. Teoricamente, uma boa releitura elimina o problema, a menos que se trate de texto escrito em cima da hora, o que é muito comum no ambiente jornalístico. Nesse caso, resta ao profissional pedir aos céus que o protejam e ao leitor (se ocorrer o desvio) que seja compreensivo.
Vejamos os outros exemplos citados neste texto. Na frase sobre o valor dos apartamentos (“...o valor dos pequenos apartamentos centrais superam...”), é grande a tentação de colocar o verbo no plural, já que o núcleo do sujeito (“valor”) está longe do verbo e é seguido por uma boa turma de elementos flexionados no plural (“dos pequenos apartamentos centrais”). Isso explica o motivo do desvio, mas não o torna aceitável na língua padrão. A forma adequada é mesmo “supera” (“...o valor dos pequenos apartamentos centrais supera...”), e não “superam”.
No segundo exemplo (“Nenhum dos ministros ouvidos pelos jornalistas quiseram...”), há o pronome “nenhum”, com o qual se observa o mesmo processo comentado acerca do emprego de “qualquer”. “Nenhum” é zero, nada, por isso exige verbo no singular: “Nenhum dos ministros ouvidos pelos jornalistas quis confirmar a notícia”.
Na fala, esses desvios muitas vezes são inevitáveis; na escrita, uma boa releitura é fundamental e quase sempre suficiente para eliminar o problema. Por isso, fique atento: quando empregar “cada um de/dos/das”, “nenhum/a de/dos/das”, “qualquer de/dos/das”, “o valor de/dos/das”, “o preço de/dos/das” etc., tome cuidado. Não se deixe levar pela tentação de fazer o verbo concordar com os elementos mais próximos.
Até domingo. Um forte abraço.