Professor Pasquale
17/05/2008 14:30
Nas últimas semanas, trocamos duas palavras sobre alguns verbos que costumam freqüentar as listas dos mais "pedidos" (pelos vestibulares, pelos leitores, pelas pessoas que me param nas ruas etc.). Falamos especificamente de três verbos ("ver", "ter", "pôr" e respectivas famílias), com ênfase para a conjugação do futuro do subjuntivo ("Se/Quando eu vir o filme..."; "Se/Quando eu mantiver a calma..."; "Se/Quando eu expuser os quadros...").
Pois bem. Esse trio na verdade é um quarteto. O último integrante da tropa é o verbo "vir" (e, obviamente, seus derivados, como "intervir", "convir", "provir" etc.). O leitor certamente já ouviu alguma figura pública dizer algo como "Não intervimos no câmbio em momentos muito mais graves do que o atual" ou "O governo não interviu porque achou que não era necessário intervir". E então? Que lhe parecem as formas verbais "intervimos" e "interviu"?
Vamos lá, pois. De início, convém lembrar que "intervir" vem do latim ("intervenire") e, ao pé da letra, significa "vir entre". Em outras palavras, quem intervém se põe no meio, interfere, entremete-se, intromete-se. Nas variedades cultas da língua, o verbo "intervir", que deriva de "vir" (que vem do latim "venire"), segue integralmente a conjugação de seu "pai" (ou de sua "mãe" - a escolha é livre), ou seja, segue a conjugação de "vir". Isso significa que, se a primeira pessoa do plural do pretérito perfeito de "vir" é "nós viemos", a de "intervir" é "nós interviemos" ("Não interviemos no câmbio em momentos muito mais graves do que o atual"). Assim como dizemos "viesse" ("se eu/ele viesse"), dizemos "se eu/ele interviesse" (temos aí formas do pretérito imperfeito do subjuntivo de "vir" e de "intervir", respectivamente).
Recentemente, um peixe graúdo do mercado financeiro disse que, "se o Banco Central não intervisse no mercado de câmbio...". Para adequar o texto às variedades formais da língua, é necessário trocar "intervisse" por "interviesse" ("Se o Banco Central não interviesse...").
Para colocar um pouco de pimenta na conversa, permita-me uma observação sobre o verbo "prevenir", cuja origem... Pois bem, esse verbo também vem do latim: "prevenir" vem de "praevenire" ("vir antes"). E como se conjuga "prevenir"? O presente do indicativo começa com "eu prevenho"? Não começa, não. O verbo "prevenir" não segue a conjugação de "vir", de cuja família etimológica faz parte. "Prevenir" se distancia de "vir" pela forma (não termina em "vir") e pelas flexões.
Mais uma vez, constata-se que, em língua, certas "racionalidades" não ficam de pé. Mais uma vez, o fator uso se mostra inexorável, implacável. Assim como impôs a conjugação de "intervir" com base na de "vir", o uso nas modalidades cultas da língua impôs forma e conjugação "autônomas" de "prevenir", embora esse verbo pertença à família etimológica de "vir".
É bom lembrar que o verbo "prevenir" é irregular, já que o segundo "e" do radical ("preven-") é substituído por "i" em algumas flexões ("eu previno, tu prevines, ele previne, nós prevenimos, vós prevenis, eles previnem"; "que eu previna, que tu previnas, que ele previna, que nós previnamos, que vós previnais, que eles previnam"). Nos pretéritos e nos futuros (do indicativo e do subjuntivo), as flexões de "prevenir" são regulares ("eu preveni", "ele preveniu", "eles preveniram", "eu prevenirei", "ele prevenirá", "eles prevenirão", "se eu prevenisse", "se nós preveníssemos", "se eles prevenissem" etc.). O particípio de "prevenir" é "prevenido".
Há casos opostos ao do par "vir/prevenir" (verbos que, como vimos, são da mesma família etimológica, mas não se flexionam da mesma maneira). Um belo dia voltamos a esse assunto.
Até domingo. Um forte abraço.