Pasquale Cipro Neto
10/05/2008 16:57
Há um bocado de tempo (1975), Chico Buarque fez muito sucesso com a belíssima canção Bem-Querer (que interpretava com Maria Bethânia). A letra começa assim: "Quando o meu bem-querer me vir, estou certa que há de vir atrás...". Conhece? Lembrou? Que me diz da primeira oração da letra ("Quando meu bem-querer me vir...")? De que verbo é a forma "vir"?
Se você leu as últimas colunas, deve lembrar que tratamos da conjugação do futuro do subjuntivo de dois verbos irregulares, monossilábicos ("ter" e "pôr"), e de suas respectivas famílias ("manter", "deter", "entreter", "obter", "reter" etc., que derivam de "ter", e "depor", "propor", "repor", "impor", "supor" etc., que derivam de "pôr"). Vimos que, se no futuro do subjuntivo de "ter" temos "se/quando eu tiver", no de "entreter" temos "se/quando eu entretiver". Vimos também que, se no futuro do subjuntivo de "pôr" temos "se/quando eu puser", no de "contrapropor" temos "se/quando eu contrapropuser".
Vimos ainda que na linguagem do dia-a-dia é comum a conjugação desses verbos como se fossem regulares, o que gera formas como "Se o Corinthians contrapropor...", "Se o árbitro não manter o pulso firme" etc. Nas variedades formais da língua, as duas frases que acabamos de ver passariam a ter as formas verbais "contrapropuser" e "mantiver", respectivamente.
Mas voltemos ao início da nossa conversa e, mais precisamente, ao verso de Chico Buarque. Afinal, a que verbo pertence a forma "vir" de "Quando meu bem-querer me vir"? Temos aí a terceira pessoa do singular do futuro do subjuntivo do verbo... Se você pensou no verbo "vir", pode mudar de idéia. O que temos aí é o verbo "ver". Sim, trata-se do verbo "ver", cujo futuro do subjuntivo se faz como o de qualquer verbo da nossa língua.
Já esqueceu como é o processo? Vamos lá: o caminho mais curto está na terceira pessoa do plural do pretérito perfeito (eles fizeram, eles disseram, eles puseram, eles quiseram, eles deram etc.). O que é que se faz mesmo? Retiram-se as duas últimas letras, que são sempre "am", e se chega à primeira pessoa do singular do futuro do subjuntivo.
Então vamos lá: de "eles disseram", chega-se a "se/quando eu disser"; de "eles deram", chega-se a "se/quando eu der"; de "eles quiseram", chega-se a "se/quando eu quiser"; de... E agora? Acho que já passou da hora de vermos o nosso "personagem" central de hoje. Vamos lá? Então vamos: "Ontem eles viram você à tarde, na Rua do Ouvidor, passeando de mãos dadas com uma bela garota". Muito bem. A forma "viram", que aparece na frase, é da terceira pessoa do plural do pretérito perfeito do verbo "ver", certo? Pois então mãos à obra! Que falta fazer? Eliminar as duas últimas letras, ou seja, "am". Já fez a "conta"? É claro que já! O que sobrou de "viram" quando se retirou a dupla "am"? Sobrou "vir", não? Então vamos lá: "Se/Quando eu vir tua prima, darei o recado"; "Se/Quando eu vir você de novo, discutiremos outra vez a respeito dessa tese".
Na língua do dia-a-dia, é raro ouvirmos o futuro do subjuntivo do verbo "ver" conjugado de acordo com a norma padrão. Talvez por influência da forma "vir" do próprio verbo "vir" ("Posso vir aqui amanhã?", "Ela não deve vir hoje"), o falante acaba evitando aquilo que lhe parece estranho, confuso ou errado mesmo e conjuga o verbo "ver" como se fosse regular ("Se você me ver lá..."). Que fique claro: nas modalidades cultas da língua, o futuro do subjuntivo do verbo "ver" segue o processo de formação que se vê em qualquer verbo da língua, seja regular, seja irregular, portanto a forma "Se você me ver lá" dá lugar à construção "Se você me vir lá", em que "vir" é a terceira pessoa do singular do futuro do subjuntivo do verbo "ver".
Na frase de Chico, também ocorre a terceira pessoa do singular do futuro do subjuntivo de "ver", cujo sujeito é "o meu bem-querer". Repitamos, pois, o que diz o mestre: "Quando o meu bem-querer me vir, estou certa que há de vir atrás...".
Até domingo. Um forte abraço.