03/05/2008 16:45
Os últimos fatos das tristes páginas da crônica policial têm levado muita gente a tropeçar no raciocínio, na ética (e dá-lhe condenação sumária!) e na língua. Já perdi a conta de quantas vezes ouvi no rádio e na tevê coisas como "Se as testemunhas deporem ainda hoje..." ou "As testemunhas que já deporam...".
Pois bem. O leitor certamente já percebeu que trataremos do verbo "depor" e dos demais membros da grande família do verbo "pôr". Como já vimos na última coluna, em que tratamos da família do verbo "ter", o futuro do subjuntivo... Bem, como a "audiência" às vezes é rotativa, talvez seja conveniente relembrar que o modo subjuntivo é o da dúvida, da hipótese, da possibilidade etc. São do futuro do subjuntivo formas verbais como as que se vêem em "Se eu der o dinheiro a ele...", "Se ela disser toda a verdade...", "Quando você for a Montevidéu...", "Quem obtiver o primeiro prêmio..." etc.
E de onde vem mesmo o futuro do subjuntivo? Não custa (re)lembrar que esse tempo é derivado do pretérito perfeito do indicativo, aquele em que estão flexionadas formas como "eu fui", "ela fez", "nós dissemos", "eles puseram" etc. O caminho mais curto para a formação da primeira pessoa do singular do futuro do subjuntivo começa na terceira pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo, da qual se eliminam as duas últimas letras, que sempre são "am". Vamos aos "fatos": de "disseram" (eles disseram), chega-se a "disser" (se/quando eu disser, se/quando tu disseres, se/quando ele disser, se/quando nós dissermos...").
E como é mesmo a terceira pessoal do plural do pretérito perfeito do verbo "pôr"? Vamos lá: "Ontem eles puseram o livro em outro lugar". Que é que se faz mesmo? Eliminam-se as duas últimas letras ("am") de "puseram" e se chega a "puser" (se/quando eu puser, se/quando tu puseres, se/quando ele puser, se/quando nós pusermos, se/quando vós puserdes, se/quando eles puserem).
Você certamente já ouviu alguém dizer algo como "Se você pôr a carta no correio hoje...". O que ocorre aí é a conjugação do verbo "pôr" como se ele fosse regular, ou seja, como se ele seguisse o padrão de conjugação de verbos como "beijar" (se/quando eu beijar), "beber" (se/quando eu beber), "permitir" (se/quando eu permitir) etc. O fenômeno da "regularização" do verbo é muito comum, como se nota, por exemplo, na linguagem das crianças, quando dizem "eu sabo", "eu podo", "eu fazo" etc. Quem diz "Se você pôr a carta no correio hoje..." conjuga o verbo "pôr" como se ele fosse regular.
Que deve fazer um jornalista quando se dirige ao público? Usar as formas mais comuns na linguagem oral do dia-a-dia ou privilegiar aquelas que freqüentam as variedades formais da língua? Tire você mesmo a sua conclusão, caro leitor. Em se tratando da língua padrão, carecem de reparo frases como "Se as testemunhas deporem ainda hoje" ou "As testemunhas que já deporam". Vamos lá: "Se as testemunhas depuserem ainda hoje..."; "As testemunhas que já depuseram...".
Não custa repetir: o verbo "depor" segue a conjugação do verbo "pôr", do qual deriva. Bem, na verdade, o que vimos não vale apenas para o verbo "depor"; vale para todos os verbos terminados em "-por" (propor, expor, supor, impor, repor, sobrepor, compor, interpor, contrapropor, opor, dispor etc.). Como o futuro do subjuntivo de "pôr" é "se/quando eu puser, se/quando tu puseres, se/quando ele puser etc.", o de "impor", por exemplo, é "se/quando eu impuser, se/quando tu impuseres, se/quando ele impuser, se/quando nós impusermos, se/quando vós impuserdes, se/quando eles impuserem".
Então vá lá: "Quando você ________ uma canção como essa, poderá pensar em vôos mais altos na sua carreira". Em se tratando das modalidades formais da língua, qual seria a forma de "compor" que preencheria adequadamente a lacuna? Basta seguir o que vimos no parágrafo anterior. A forma adequada é "compuser" ("Quando você compuser uma canção como essa, poderá pensar em vôos mais altos na sua carreira").
Até domingo. Um forte abraço.