Professor Pasquale
26/04/2008 16:09
Promessa é dívida. A coluna da semana passada terminou com a promessa de abordagem dos derivados de "ter", especificamente sobre sua flexão no futuro do subjuntivo. Vamos lá, pois.
"E na TV se você vir um deputado em pânico, mal dissimulado..." Lembra? São versos da antológica canção Haiti (letra de Caetano Veloso; música dele e de Gilberto Gil). De onde vem mesmo a forma verbal "vir" (de "Se você vir um deputado...")? Bem, antes de vermos de onde ela vem, convém dizer que estamos falando do futuro do subjuntivo do verbo "ver". Sim, do verbo "ver".
O futuro do subjuntivo é um dos tempos derivados do pretérito perfeito. Bem, é melhor parar de usar termos técnicos e traduzir logo tudo isso com exemplos concretos. O pretérito perfeito do indicativo é aquele que apresenta formas como "eu fui", "ela esteve", "nós trouxemos", "eles puseram" etc. Lembrou? Pois o futuro do subjuntivo (aquele tempo de "Quando eu for", "Se ela estiver", "Quando nós fizermos", "Se eles puderem" etc.) deriva do tal do pretérito perfeito.
O caminho mais rápido para que se chegue à primeira pessoa do singular do futuro do subjuntivo é este: basta pegar a terceira pessoa do plural do pretérito perfeito e eliminar as duas últimas letras, que são sempre "am". Vejamos na prática: de "souberam" (eles souberam), obtém-se "souber" ("Se eu souber, se tu souberes, se ele souber..."); de "disseram", chega-se a "disser" ("Se eu disser, se tu disseres, se ele disser..."); de "trouxeram", obtém-se "trouxer". Esse processo vale para todos os verbos da língua portuguesa - todos, absolutamente todos!
Já que vale para todos, vejamos o que ocorre com o verbo "ter" e respectiva família (deter, manter, conter, obter etc.). Como é mesmo a terceira pessoa do plural do pretérito perfeito do verbo "ter"? Vamos lá: "Ontem eles...". Eles o quê? Eles "tiveram". Seguindo o sistema que acabamos de ver, chega-se a "tiver" ("tiveram" - "am" = "tiver"). Então, o futuro do subjuntivo de "ter" é "se/quando eu tiver, se/quando tu tiveres, se/quando ele tiver, se/quando nós tivermos, se/quando vós tiverdes, se/quando eles tiverem".
A família de "ter" segue o berço, ou seja, é conjugada como se conjuga o próprio verbo "ter": "se/quando eu mantiver a calma", "se/quando tu retiveres os alunos", "se/quando ele obtiver a resposta", "se/quando nós detivermos o título", "se/quando vós mantiverdes a fé", "se/quando eles se abstiverem de carne". Identificou os verbos flexionados (todos no futuro do subjuntivo)? Vamos lá, pela ordem: manter, reter, obter, deter, manter, abster-se.
Na língua do dia-a-dia (e mesmo em situações mais formais - pronunciamentos públicos de autoridades, intervenções de jornalistas ou de comentaristas econômicos, por exemplo), é muito comum o emprego dos derivados de "ter" como se eles fossem verbos regulares. Tradução: volta e meia se ouvem construções como "Se ele manter a calma", "Se você não obter a resposta", "Quando ela deter o impulso", "Se a máquina reter o cartão" etc. Mutatis mutandis, isso equivale ao que fazem as crianças quando dizem "eu fazo", "eu podo", "eu sabo" etc.
Inteligentes e rápidas na percepção de determinados processos, as crianças conjugam os verbos por associação, por dedução, pelo modelo da maioria. Se de "chegar" se faz "eu chego" e de "beber" se faz eu "bebo", é normal que de "saber" se faça "eu sabo". Sim, bem normal e "lógico", mas não consagrado pelo uso padrão. Pois bem, assim como não há registro (na língua padrão) de "eu sabo", não há registro de "se ele manter a calma". Nas variedades formais da língua, os verbos da família de "ter" se conjugam como o "pai".
Vamos insistir um pouco mais nas flexões dos integrantes dessa família: "se/quando eu me abstiver, se/quando eu mantiver, se/quando eu detiver, se/quando eu contiver, se/quando eu entretiver, se/quando eu retiver, se/quando eu obtiver". Os verbos "abster-se", "manter", "deter", "conter", "entreter", "reter" e "obter" derivam de "ter". Para conjugar qualquer deles, basta conjugar o verbo "ter". O exemplo presente no título desta coluna é simples, não? Temos lá o verbo "manter" ("se eu/ele mantiver a palavra dada, se nós mantivermos a palavra dada, se eles mantiverem a posse de bola" etc.). Tudo claro? Então, mãos à obra.
Até domingo. Um forte abraço.