Pasquale Cipro Neto
19/04/2008 15:29
Num de seus últimos vestibulares, a Fuvest formulou uma questão baseada nestas frases, extraídas do termo de garantia de um produto para emagrecimento: "I) Esta garantia ficará automaticamente cancelada se o produto não for corretamente utilizado; II) Não se aceitará a devolução do produto caso ele contenha menos de 60% de seu conteúdo".
O enunciado da questão era este: "Reescreva os trechos sublinhados nas frases I e II, substituindo as conjunções que os iniciam por outras equivalentes e fazendo as alterações necessárias". O trecho destacado na frase I era "se o produto não for corretamente utilizado"; o da frase II era "caso ele contenha menos de 60% de seu conteúdo".
Como se vê, quem não sabe o que é "conjunção" pode não resolver a questão. Em outras palavras, a banca exige dos candidatos o domínio de nomenclatura técnica, específica. Vejamos, pois, como fica isso. O Aurélio diz que "conjunção" é "palavra invariável que liga duas orações ou dois termos semelhantes da mesma oração". Talvez seja melhor exemplificar o que diz o dicionário: a) "Não fui porque não pude" (a conjunção "porque" liga as duas orações); b) "Lula e FHC andam às turras por causa dos cartões corporativos" (a conjunção "e" liga "Lula" e "FHC", núcleos do sujeito composto).
Mas voltemos ao texto da questão da Fuvest. Releia-o, por favor. No trecho da frase I, encontra-se a conjunção "se", que liga as duas orações do segmento e estabelece entre elas o nexo de condição (a correta utilização do produto é condição para a garantia não ser automaticamente cancelada). No trecho II, encontra-se a conjunção "caso", que também estabelece nexo de condição (para que se aceite a devolução do produto, é necessário que ele contenha pelo menos 60% do que continha quando "novo").
Para responder à questão, o candidato mais "distraído" poderia simplesmente trocar "se" por "caso" e vice-versa, mas, por trás do aparentemente ingênuo pedido da banca, escondem-se algumas possíveis (e perigosas) armadilhas. No trecho I, com a troca de "se" por "caso" recomenda-se a troca do futuro do subjuntivo (em que está flexionada a forma "for", do verbo "ser") pelo presente do subjuntivo: "...caso o produto não seja corretamente utilizado".
Por que escrevi "recomenda-se"? Porque, nas variedades formais da língua, quando se emprega a conjunção "caso", predomina a flexão do verbo no presente do subjuntivo. Há, no entanto, pelo menos uma voz discordante, a do professor Domingos Paschoal Cegalla, que, em seu Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa, dá estes exemplos: "Caso persistirem as chuvas, os rios transbordarão"; "Ele será processado, caso não se retratar". No Aurélio e no Houaiss, os exemplos são estes, respectivamente: "Caso você fique, é bom avisar"; "Caso ele vá, nós avisaremos". Celso Cunha e Lindley Cintra dão este exemplo, de Ciro dos Anjos: "A entrevista ficou marcada para as quatro da tarde, caso você não prefira ir à noite". O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, dá este exemplo: "Caso ele venha, é preciso preparar-lhe o quarto". Pelo jeito, apesar do abono de Cegalla, quem trocou "se" por "caso" e manteve "for" ("...caso o produto não for corretamente...") deve ter feito mau negócio.
E como fica o trecho II? Agora, a troca de "caso" por "se" impõe o percurso contrário, ou seja, a troca do presente do subjuntivo (em que está flexionada a forma "contenha") pelo futuro do subjuntivo. Pois é justamente aí que a roda pode pegar. A resposta não é (repito: não é) "... se ele conter menos de 60% de seu conteúdo". O verbo "conter" segue a conjugação de "ter", do qual deriva. A forma padrão é "...se ele contiver menos de 60% de seu conteúdo". Eis um belo assunto para as próximas colunas (a família do verbo "ter"). Faz um bocado de tempo que não trato disso neste espaço.
Até domingo. Um forte abraço.