Pasquale Cipro Neto
23/06/2007 14:07
Elá vamos nós para mais uma rodada de “assuntos genéricos”, que, é bom repetir, surgem de perguntas dos queridos leitores. Começo por uma leitora que se refere a esta passagem de um poema de Carlos Drummond de Andrade: “A tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos”. Por sinal, citei esses versos há algum tempo na coluna. A leitora diz que “gostaria de entender por que se emprega ‘houvesse’, no singular, se os desejos são muitos”. “Como é mesmo que se explica esse caso?”, pergunta ela.
O que temos aí é o verbo “haver”, empregado com o sentido de “existir”. Se o verbo tivesse sido conjugado no presente do indicativo, teria ocorrido o emprego de “há” (“Há tantos desejos”). Como se sabe, “há” é da terceira pessoa do singular; a terceira do plural é “hão”. Quando é usado com o sentido de “existir” ou com o de “ocorrer”, o verbo “haver” não é posto no plural, independentemente do tempo em que é conjugado. Em outras palavras, isso significa que o que vale no presente vale no pretérito e no futuro.
Moral da história: assim como se diz “Há tantos desejos” (e não “Hão tantos desejos”), ou seja, emprega-se o verbo “haver” no singular, diz-se “Havia tantos desejos” (e não “Haviam...”), “Houve tantos desejos” (e não “Houveram...”), “Haverá tantos desejos” (e não “Haverão...”) e assim por diante. É por isso que Drummond escreveu “A tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos”, em vez de “Não houvessem tantos desejos”.
É bom insistir num ponto: trata-se de particularidade do verbo “haver”. Seus sinônimos não têm nenhuma relação com a história. Se trocássemos “haver” por “existir”, teríamos “existissem” (“Se não existissem tantos desejos”). O verbo “existir” sempre concorda com seu sujeito. O “diferente” é o verbo “haver”, quando usado com o sentido de “existir” ou de “ocorrer”.
Uma pergunta que sempre fazem é esta: “Então não existe ‘houveram’ e não existe ‘haverão’?”. É claro que essas formas existem. Para empregá-las, é preciso que o verbo “haver” tenha outros significados: “Elas já haviam feito o trabalho”; “Elas haverão de conseguir a vaga”; “Os rapazes não se houveram bem na missão”. No último caso, “haver” significa “sair-se”, “comportar-se” (“Os rapazes não se saíram bem na missão”).
Um leitor quer saber se é correta esta frase, publicada em um cartaz: “Mande as bactérias lamber sabão”. “Isso está correto, ou o verbo deveria ficar no plural (‘lamberem’)?”, pergunta o leitor. A frase é boa, e também seria boa com “lamberem”. A flexão do infinitivo, como se sabe, não é mar de águas calmas. Com verbos como “mandar”, “fazer” e “deixar” (tecnicamente chamados de “causativos”), a flexão do infinitivo é optativa, quando seu sujeito é um substantivo: “Deixe as crianças entrar” (ou “entrarem”); “Faça os rapazes trabalhar” (ou “trabalharem”); “Mande as bactérias lamber sabão” (ou “lamberem”).
Quando o infinitivo vem antes do substantivo que funciona como sujeito, é mais comum que não seja flexionado (“Faça trabalhar os rapazes”; “Deixe entrar os meninos”; “Deixai vir a mim as criancinhas”), mas a flexão é possível (“Faça trabalharem os rapazes” etc.). Quando o substantivo é substituído por um pronome, não ocorre a flexão: “Faça-os trabalhar” (em vez de “Faça-os trabalharem”); “Deixe-os entrar”; “Mande-as lamber sabão”.
Por fim, vejamos o caso da palavra “milhão”. Um leitor quer saber se é boa esta construção: “Os milhões de obras imperfeitas”. É boa, sim. “Milhão” é palavra masculina e, por isso, exige que o artigo e os demais termos antecedentes sejam masculinos: “Os dois milhões de doses”, “Os vinte milhões de mulheres”, “Os muitos milhões de pessoas”. É bom lembrar que ninguém diz que o governo britânico gastou “duas milhões de libras”. Assim como se diz “dois milhões de libras” ou “os milhões de libras”, diz-se “os milhões de obras”. O que vale para “milhão” vale para “milhar”, que também é palavra masculina: “Os milhares de pessoas que...” (e não “As milhares de pessoas que...”).
Cumpre destacar que, no uso moderno, sobretudo na imprensa, é cada vez mais forte a tendência de tornar neutras essas palavras (“milhão” e “milhar”) e, conseqüentemente, levar em conta o substantivo quantificado para estabelecer a concordância. É por isso que se ouvem e lêem com freqüência construções como “as milhões de pessoas”, “as milhares de mulheres” etc. Gramáticas e dicionários, no entanto, ainda não legitimam esse uso.