Pasquale Cipro Neto
04/10/2008 15:47
E vamos para a quinta rodada de respostas aos leitores. A primeira pergunta vem de um leitor, que quer saber como fica a acentuação das formas verbais que se juntam a pronomes pessoais. O leitor se refere especificamente aos casos em que se elimina o "r" do infinitivo ("beijá-la", "perdê-la", "estudá-la" etc.).
Nesses casos, deve-se levar em conta a forma (e a respectiva pronúncia) que resulta da eliminação do "r". No caso de "beijá-la", "perdê-la" e "compô-lo", por exemplo, levam-se em conta as formas "beijá", "perdê" e "compô", que são oxítonas terminadas em "a", "e" e "o", respectivamente. As três recebem acento justamente porque oxítonas que têm essa terminação devem ser acentuadas.
É preciso tomar cuidado com as formas que terminam em "i", como "traí-lo" e "puni-lo". Por que só a primeira tem acento? Já vimos que se leva em conta a forma verbal que resulta da eliminação do "r" do infinitivo. Em "traí-lo", leva-se em conta "traí", palavra na qual ocorre hiato, já que o "i" se separa da vogal anterior ("tra-í"). Entra em cena a regra de acentuação dos hiatos: ocorre acento quando a segunda vogal (tônica) do hiato é "i" ou "u", que podem ter a companhia de um "s".
É por essa regra que se acentuam palavras como "saúde", "baú", "caí", "saída", "aí", "viúva", "país", "balaústre" etc. É bom lembrar que não há acento quando ocorre o grupo "nh" depois da segunda vogal do hiato, nem quando o hiato é formado pela repetição da vogal: "rainha", "campainha", "moinho", "mandriice", "sucuuba", "vadiice" etc.
E por que não ocorre acento em "puni-lo"? Porque se leva em conta "puni", simples oxítona terminada em "i", que não recebe acento, como "ali", "Morumbi", "Catumbi", "Javari", "daqui", "Zumbi" etc.
A segunda questão vem de uma leitora, que quer saber como se faz o plural de "público-alvo". Temos aí um substantivo composto (típico da linguagem publicitária), formado por dois substantivos. O segundo substantivo ("alvo") limita o sentido do primeiro, o que nos leva a concluir que há duas possibilidades de plural: flexão do primeiro elemento ("os públicos-alvo") ou flexão dos dois ("os públicos-alvos"). A tradição gramatical parece preferir a primeira, mas, modernamente, não faltam registros do procedimento visto na segunda forma. Enquadram-se nesse caso compostos como "navio-escola", "navio-hospital", "peixe-boi", "pombo-correio", "salário-família", "vale-transporte" etc., cujo plural pode ser "navios-escola(s)", "navios-hospital(is)", "peixes-boi(s)", "pombos-correio(s)", "salários-família(s)" e "vales-transporte(s)", respectivamente.
A terceira questão vem de um leitor, que quer saber se o plural de "nota fiscal" se enquadra no caso que acabamos de ver. O plural de "nota fiscal" não tem nenhuma relação com a situação que acabamos de analisar. As razões são duas: a) não se trata de palavra composta; b) não se trata de dois substantivos. O que temos aqui é um substantivo ("nota"), modificado por um adjetivo ("fiscal"), sem que se forme uma palavra composta. É como fazer o plural de "menina graciosa" ("meninas graciosas"), "jogador habilidoso" ("jogadores habilidosos"), "prato saboroso" ("pratos saborosos") etc. O plural de "nota fiscal", portanto, é simplesmente "notas fiscais".
A quarta questão de hoje vem de uma leitora, que quer saber se é correto o emprego de "há" neste trecho: "Há apenas 68 quilômetros da cidade de São Paulo, as praias de Santos oferecem...". Esse "há" não cabe na frase em questão. Deveria ocorrer aí a preposição "a", que, no caso, estabelece relação de distância. Assim como se diz que São Paulo fica "a" (e não "há") mil quilômetros de Brasília, diz-se que as praias de Santos ficam "a" (e não "há") 68 quilômetros de São Paulo.
Esse erro talvez decorra do cruzamento destas duas construções: "Entre as praias de Santos e São Paulo há apenas 68 quilômetros"; "As praias de Santos ficam a apenas 68 quilômetros de São Paulo". É preciso cuidado para não misturar os casos.
A última pergunta de hoje vem de uma leitora, que quer saber se o primeiro "u" de "aqueduto" deve ser pronunciado. De acordo com o que se vê nos dicionários e no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, não há registro da forma "aqüeduto" (com trema, que ainda não morreu). A grafia registrada é "aqueduto" (sem trema), portanto o grupo "que" dessa palavra deve ser lido como o de "aquele", "aquela" etc.
Até domingo. Um forte abraço.