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Airton Monte

Crônica

Velho bandido

Airton Monte
21 Nov 2008 - 00h22min

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Estranhou o silêncio do apartamento. Ficara enormemente vazio sem a presença dele, seu homem. Onde andará nesta tarde vazia, tão clara e sem fim? Remexeu nos livros da estante, tocou nos velhos long plays que ele tanto amava, chegou até mesmo a cheirar as roupas dele rescendendo a suor recente, olhou a surrada máquina de escrever, o computador novo sobre a mesinha da sala, as folhas de papel em branco espalhadas pelo chão que lembravam a ela um lenço acenando da janela de um trem deixando a estação. O desleixo do apartamento como se há várias semanas ninguém o habitasse, era uma sensação nova, estranha e dolorosa.

Permaneceu estática no centro da sala, olhando em volta os quadros pintados por amigos dele, as grandes manchas acinzentadas no assoalho, a rede branca com varandas desfiadas, um pouco suja, a garrafa de vinho barato vazia ao pé da poltrona de couro gasto, queimada de cigarro. Foi até a janela. Fitou a cidade anoitecendo lentamente e seus olhos de mulher embaçaram-se como uma vidraça molhada. Sim, ela tinha agora medo da cidade, estava sozinha e tinha medo da cidade que era só dele e que, sem ele, nem era mais a sua cidade dela. Uma torneira quebrada pingava feito o bater angustiado do seu coração e a angústia e o medo crescendo dentro dela feito um tumor ou um filho espúrio.

Pensou que podia amar assim? Jamais. Mas amava aquele homem fugidio e sua vida dependia inteiramente daquele amor sem redenção por aquele homem que nunca lhe prometeu nada além do prazer e sempre disse que podia partir a qualquer momento feito um arisco marinheiro do inesperado. Entanto, ela o amava como o ama agora enquanto o procura pelas ruas labirínticas da cidade e pega um táxi e manda tocar para os bares da praia, porque sabe que o seu homem ama o mar e deve estar por lá agora, talvez perdidamente apaixonado por outra mulher que não ela, como se ela já não mais existisse na vida dele.

Desceu do táxi, entrou e saiu dos bares da orla onde soava uma música triste, nostálgica, caminhando por entre as mesas feito uma sonâmbula e todas as pessoas rosto não tinham, eram todas uns simulacros, como uns fantasmas perdidos na bruma, só ela e a sua busca eram a única realidade possível. Desceu o caminho coalhado de pedras em direção ao mar como se o mar fosse a sua última esperança, o último alento de alguém morrendo mergulhado, afogado em solidão e silêncio. O tempo, implacável, continuava a passar e aquele vulto de mulher andando na praia deserta atrás do amor, velho bandido.

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21/11/2008
16:15

Taí, assim é uma verdadeira crônica. Uma temática ligada ao cotidiano. O encadeamento preciso das idéias, reforçando a oralidade na escrita. Aflorando uma narrativa informal, bastante intimista, numa linguagem coloquial, sem contudo ser vulgar. Denotando toda a sensisilidade do autor com a realidade. Pode-se notar, também, uma certa dose de lirismo, entremeada com uma leveza singular, cujo enredo mescla anseios, receios, insegurança, carência, amor, medo, incerteza, cujo palco é a cidade, com suas transformações abruptas. Parabéns Airton.

Deodoro

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