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Airton Monte

Crônica

Crueldades da amada

Airton Monte
18 Nov 2008 - 00h49min

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Faz-se domingo e abençoadamente não chove, nem lá fora, nem dentro de mim. Pode até parecer estranho um nordestino, cabeça-chata da gema, um cabeção, invocar os deuses da chuva feito um Tremembé urbano para que tranquem, a sete chaves, as comportas de mais um dilúvio. Sim, pode parecer estranho para quem não mora nesta cidade solar, equatorial, onde transita, sobrevive e se morre de amores este suburbano poeta menor. Em Fortaleza, chuva demais, vira sinônimo de tragédia e um holocausto de vítimas inocentes, graças à crônica e fatal incúria de quem de direito deveria evitá-las.

Pois muito bem, faz-se o domingo lá fora e dentro de mim. Já no coração da bem amada acontece um siberiano inverno, daqueles em que os passarinhos congelam, petrificados, em pleno vôo. Imaginem se alguém é capaz de imaginar a nelsonrodrigueana cena. Estou sentado à mesa de trabalho, batucando a minha sambada Underwood, quando a bem amada, de chofre, escancara a porta e vocifera, com uma ferocidade de tango, que jamais a amei e me joga na cara como uma bofetada, meus pecadilhos passados, presentes e futuros.

Possuído de uma calma que me é estranha, engulo em seco os impropérios e meu temperamento de siciliano e apenas lhe digo, com uma suave selvageria, como não amar alguém com quem se divide a vida por quase quarenta anos. Como não amar alguém, por quem não fui pra guerrilha do Araguaia? Por quem deixei de ir fazer meu mestrado Sorbonne? Por quem não me mudei de mala e cuia para o Rio de Janeiro? Como não amar uma mulher, por quem recusei outras mulheres tão belas e tão ricas? E isso tudo eu disse a ela, de lábio trêmulo e olhos rútilos.

As bem amadas são, por vezes, de uma crueldade de Átila e despidas de piedade como um imperador romano numa manhã de lutas no Coliseu. Isso tudo eu disse à bem amada, como meu agoniado e frágil coração partido em mil pedaços, feito uma vidraça de banco depois de um atentado terrorista. E disse-o mais: por que ela não havia casado com um marido conjugalmente burocrático, barrigudo, que dormisse de pijama listrado e fosse um sujeito comezinho, tristemente abstêmio? Por que diabos casou com um poeta pobre, boêmio, que só sabe expressar seu imenso amor através de tantas inúteis palavras?

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18/11/2008
16:49

porque não tem mais a sua foto..???? FEIURA...OU ECONOMIA DE ESPAÇO....ABRAÇO DO velho bel

velho bel

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18/11/2008
10:14

Sou Leitor assíduo do Airto Monte, suas colocações são precisas. Também sou marido, vivo com pouco dinheiro e gosto da boemia... Um abraço.

Nabor

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