Airton Monte
Crônica
Eu gosto é de música
Airton Monte
14 Nov 2008 - 00h16min
É porque vocês, perclaros leitores meus, graças a Deus, não conhecem o Deodoro, o que, infelizmente, misericordiosamente, não acontece comigo. Ora, para a minha infelicidade, eu conheço o Deodoro desde os meus tempos de Colégio Cearense, quando eu era um jovem militante do glorioso Partido Comunista do Brasil. Ele, membro ativo da honorável seita "Tradição, Família, Propriedade", mais popularmente conhecida como TFP, uma sociedade irmã e quase gêmea do bando de escoteiros aposentados do "Grupo Guararapes", que até hoje se morde e remorde de uma incurável nostalgia da chamada "Redentora".
Para quem não sabe ou já esqueceu, a "Redentora" é sinônimo da quartelada de 1964, que mergulhou o Brasil em sangue e tortura, época em que o cidadão comum se via obrigado, por via das dúvidas, a bater continência até para porteiro de cabaré, desde que devidamente uniformizado. Para ser mais claro, estou falando da ditadura militar que levou de volta, para a Idade Média, esta continental Casa de Noca, cuja viúva mais chorosa e mais saudosa é o jornalista (um dos melhores textos que conheço) Themístocles de Castro e Silva.
Mas, isso não vem ao caso, pois quero falar mesmo é de música. Voltando ao Deodoro, que se não tivesse nascido gente, teria nascido farda, que me acusou de ser um alienado, somente porque gosto de jazz. Claro que não mandei o idiota pra Baixa da Égua porque sou um homem educado. Sim, gosto de jazz, samba, valsa, de Bach, Beethoven, Mozart, Debussy, um bolero rasgado, um forró do Gonzagão, um desafio de cantador do sertão. Para mim não tem diferença, porque eu gosto é de música, desde que me comova.
Pois é, humildemente confesso, eu amo o jazz, inclusive agora mesmo ouço Dexter Gordon e Charlie Bird e Thelonius Monk e a voz de Chet Baker enfeitando a madrugada, cantando Angel Eyes e o mundo fica tão bonito como num verso de Francisco Carvalho, José Alcides Pinto ou de Antonio Girão Barroso. Sim, Deodoro, eu amo o jazz, isso é lá pecado? Tô nem aí, Deodoro, vai lamber solado de coturno, que é o teu destino. Me deixa ficar em paz com minha música, que me faz acreditar, ainda, que a merda dessa vida faz algum sentido.
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15/11/2008
01:29
Airton, eu adoro seus textos, estou ansiosa para ver o próximo. Escreva sempre, por favor.
bruna
14/11/2008
08:33
Bom dia Airton!!! Olha, lendo a crônica de hoje, não consegui conter o enorme sorriso em minha face, por seu jeito,às vezes, hilário de se expressar. Sou também apreciadora de música, sempre tão presente em minha vida. E não estou nem aí pras pessoas que falam que o meu gosto musical é piegas. Gosto e vou continuar gostando de Roberto Carlos, Milton Nascimento, dentre outos cantores tão pouco apreciados nesta cidade que só fala e pensa em forró, que, aliás, também gosto. Abraço.
Luisa
14/11/2008
07:18
O amigo não me mandou pra baixa da égua porque, no fundo no fundo, você me admira e sempre me admirou.
Deodoro
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