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Airton Monte

Crônica

Maratonistas do cotidiano

Airton Monte
07 Nov 2008 - 00h45min

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Outro dia, qualquer dia da semana, pouco tem importância, andando pelo centro da minha e da sua cidade, observo, com olhos aguçados de cronista ou de vampiro do cotidiano, as pessoas, meus iguais, caminhando cegamente pelas ruas em um dia normal de trabalho. E do que vi, não vou negar, realmente não gostei, até senti-me um pouco constrangido como se me houvesse olhado num espelho. Percebo que há uma pressa absurdamente geral em todos os meus semelhantes, pois ninguém se locomove devagar. Ninguém pára para conversar nas esquinas e nas praças como antigamente, ninguém tem tempo para cultivar a humana convivência.

Todos, todas, sem exceção alguma, caminham apressadamente, quase que correndo, como um rebanho tangido por vaqueiros inconsúteis, a vida presa, atrelada aos ponteiros de um relógio que ninguém vê, mas que nos impõe a sua existência tirânica, ditador de vidas. Ninguém olha para os lados, todos somente olham para a frente que nem uns capengas corredores de maratona, onde a medalha de ouro é o anonimato. E me dão a terrível impressão de que quanto mais cedo chegarem aonde vão, sempre será tarde demais, tarde demais, tarde demais, coitados.

Caminham feito autômatos, andróides, marionetes. De que nos serve tanto progresso, tamanha tecnologia, se a cada dia que passa, mais vai se desumanizando a velha humanidade. O homem vai se tornando uma criatura por demais infeliz pela perda da qualidade vida. E tome adrenalina fervendo nas veias e haja estresse, ansiedade, depressão infarto, insônia, mau humor crônico, impotência sexual. Eu também tenho horários apertados, prazos a cumprir, prestações a pagar, e em certas horas do dia me sinto assim uma usina atômica enguiçada, prestes a explodir.

Entanto, tenho cá os meus truques para aliviar a situação. Invoco o menino traquinas que existe em mim, escrevo um poema, admiro um jardim, uma gota de chuva escorrendo na vidraça, um rosto de mulher, qualquer coisa que eu ache bonita. Nunca fui, não sou, jamais serei um autômato. Apesar do relógio do ponto, dos compromissos inadiáveis. Sou um homem, não uma máquina. O cotidiano não fará de mim um escravo, um zumbi. Não nasci com vocação para ser máquina. Eu sou um homem, não sou uma máquina, mesmo que seja uma máquina de escrever.

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07/11/2008
08:49

Verdade, Airton. Às pessoas, hoje em dia, vivem como uns andróides, robós ou sei lá o quê...Não sabem, infelizmente, valorizar as coisas mais simples da vida, como uma simples conversa, apreciar a natureza, rir de situções por pior que elas possam parecer, até porque tudo nessa vida passa. Então, desejo ser como você, não me deixar levar por situações do cotidiano, e apreciar, independente das situações adversas, a vida, a natureza e etc. Bela crônica, Fernanda

Fernanda

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