Airton Monte
Crônica
Os caras de pau
Airton Monte
05 Nov 2008 - 01h04min
Por vezes, dá-me uma certa vontade de ser como essas pessoas que levam a vida no vai-da-valsa, sem se importarem muito com as coisas que lhes acontecem ao redor, que não ligam a mínima para nada e que nos dão a impressão, embora falsa, de que nada nesse mundo tem alguma importância maior para elas do que uma simples e prosaica topada. E assim nos passam uma aparência de completa e olímpica indiferença com tudo que as cerca. E estão quase sempre calmas, tranquilas como se já nascessem dotadas de uma imunidade natural contra a ansiedade.
Se, por acaso, são assoberbadas por dívidas, os seus credores é que se preocupam e arrancam os cabelos na mais santa indignação, enquanto elas seguem seu caminho, impávidas, como se a sua própria inadimplência não lhes dissesse respeito. Nada lhes causa agonia, constrangimento e desconhecem o que se chama de angústia. Caso estejam comendo e bebendo à tripa fôrra junto com amigos num restaurante caro, na hora de pagar a conta, somem de vista ou mui simplesmente usam o velho truque do "esqueci a carteira de dinheiro em casa" na mais deslavada cara de pau.
Sinceramente falando, não sei se esse tipo de gente se sente feliz assim, sendo da maneira que são. Ou se já perderam a vergonha e o pouco que lhes restava de dignidade definitivamente. Para tais viventes, a palavra honra há muito perdeu todo o possível sentido e portanto, jamais ficam constrangidos se alguém lhes passa na cara a mesquinhez de seu caráter. Simplesmente se tornaram incapazes de se ofenderem com qualquer insulto, por mais terrível que seja o insulto. Aliás, para essa espécie de criatura,o vocábulo ofensa foi riscado de todos os dicionários.
Juro que eu também, nos raros momentos em que perco a lucidez e o siso, até desejaria ser que nem elas, mas rapidamente me lembro de quem sou e vou, apressado, lavar a cara com sabão. E se, pelo menos, esses desavergonhados fossem uma insignificante minoria entre a humanidade, ainda poderíamos ter este consolo. No entanto, para o nosso geral desprazer, eles são tantos e tantos e se multiplicam numa velocidade de bactérias, que acabarão por nos vencer por uma absoluta superioridade numérica. É só uma questão de tempo, mais nada e quem viver, verá.
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