Airton Monte
Airton Monte
Ferido de morte
28 Out 2008 - 01h40min
Um dia, de algum modo, sem que você esteja esperando, o passado pode tornar-se subitamente presente, vivo, pulsante como uma veia dolorida latejando em sua fronte e volta para lhe assombrar, lhe atormentar com acontecimentos, lembranças que você mortos já os julgava certamente. Então, as cicatrizes mais profundas novamente se esgarçam, velhas feridas se escancaram e o pus da dor delas escorre feito uma hemorragia de sangue apodrecido. E você nada mais pode fazer senão deixar-se a lamber suas feridas antigas que julgava mortas e enterradas, que nem um cão roendo um osso.
Daí lhe vem a horrível descoberta de que o passado jamais morre por mais que você tenha tentado matá-lo de todas as maneiras possíveis e impossíveis. Não, nunca, eis a verdade líquida e lídima que você costuma esquecer: o passado jamais morre feito o Drácula das histórias de terror que aterrorizaram o coração de sua infância. Sim, o passado também está repleto de felizes recordações que lhe adoçam a alma de adulto. Entanto, por baixo dessa tênue capa de felicidades ilusórias, sejam reais ou apenas inventadas, o horror persiste apavorantemente vivo e pronto para dar o bote feito um assassino armando a tocaia.
De nada adianta fingir que o passado passou, acabou-se, extinguiu-se e pronto: tudo terminou e você está imensamente livre, liberto da memória. Que nada, você nem sequer desconfia que o passado é a esfinge que devora o homem quando mais você se sente dele protegido, são e salvo. O passado sempre volta, seguindo ao pé da letra o refrão do eterno retorno. E quando essa hora de lembrar subitamente chega, você se sente completamente perdido, atarantado, sem pai nem mãe que nem um menino de rua. O passado sempre volta e jamais se apaga, jamais, tal e qual um fogo de monturo.
E o pior: não é somente o seu passado o que lhe atemoriza, mas há também o passado daqueles a quem você mais ama, quando lhe revelam os seus próprios terrores, os seus próprios tormentos e você nada pode fazer para mudar, remediar o que lhes aconteceu. Daí, abate-se sobre você uma dor de tal maneira indescritível, a dor de se sentir impotente, a consciência de sua imensa fragilidade. E você grita, arranca os cabelos, se desespera e sofre de uma maneira como jamais sofreu na vida e sente na própria carne todo o pavoroso sentido da expressão ferido de morte. E você toma, enfim, a consciência de que algumas coisas acontecidas no passado só podem ser lavadas com sangue.
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