Airton Monte
Airton Monte
Falta de assunto
23 Out 2008 - 01h11min
Quando converso com outros amigos cronistas, que exercem o ofício de modo profissional, tendo data e hora certas para enviar ao editor o fruto suado de seu trabalho, inevitavelmente um assunto vem à baila: exatamente a falta de assunto. Ora, pra que mentir ou tergiversar? Não temos motivo para tanto, pois que a falta de assunto é um acidente de percurso que nos acomete solertemente a todos nós, cronistas, quer sejamos diaristas ou hebdomadários, quando menos esperamos. É como um curto-circuito: súbito, a luz se apaga, os neurônios da memória se desconectam e o assunto, mesmo adrede preparado, simplesmente desmancha no ar.
Claro que geralmente bate um certo desespero que, pouco a pouco, vai se transformando em pura e simples agonia de não poder terminar o trabalho porque as palavras, feito um jumento empancado, não saem do lugar costumeiro de onde deveriam naturalmente sair e tomar, finalmente, a forma que tanto desejamos. Jorge Amado costumava dizer que, algumas vezes, ao escrever um romance, de repente dava-lhe um "nó" e não lhe restava o que fazer senão sentar e esperar calmamente que tal "nó" se desfizesse por conta própria. Mas um cronista de jornal feito eu, jamais se pode dar a tal luxo, porque para mim o tempo urge.
O Dimitri Túlio, cronista aqui da casa, que perpetra a prestigiosa Das Antigas, aos sábados, houve por bem me contar que quando lhe dá o "branco", toma uma atitude radical: põe-se de quatro, em posição eqüina, escouceia o ar em volta, zurra e arremete de ponta-cabeça contra a parede mais próxima. Diz ele ser um santo remédio para combater a falta de assunto. Até pode ser, quem sou eu para duvidar de tão honorável amigo. Entanto, confesso que não tenho uma cabeça tão dura quanto a dele e tenho medo de que minhas idéias, ao invés de desembaralhar-se, se misturem definitivamente.
Cá por mim, por ser de natureza mais preguiçosa, prefiro telefonar aos amigos e mui humildemente mendigar-lhes o modesto óbulo de uma idéia, por mais besta que seja. Ou então, apelar para a internet, onde assunto é coisa que não falta, mesmo mercadoria barata que nem bolo em fim de feira. Realmente creio que a falta de assunto trata-se de uma espécie de menopausa literária, provisória e deletéria de todo cronista. Um cronista que não sofre de um episódio banal de falta de assunto não pode ser considerado verdadeiramente um cronista até segunda ordem e, sim, não passa de um desses melancólicos turistas das letras que tanto infestam os nossos matutinos.
Claro que geralmente bate um certo desespero que, pouco a pouco, vai se transformando em pura e simples agonia de não poder terminar o trabalho porque as palavras, feito um jumento empancado, não saem do lugar costumeiro de onde deveriam naturalmente sair e tomar, finalmente, a forma que tanto desejamos. Jorge Amado costumava dizer que, algumas vezes, ao escrever um romance, de repente dava-lhe um "nó" e não lhe restava o que fazer senão sentar e esperar calmamente que tal "nó" se desfizesse por conta própria. Mas um cronista de jornal feito eu, jamais se pode dar a tal luxo, porque para mim o tempo urge.
O Dimitri Túlio, cronista aqui da casa, que perpetra a prestigiosa Das Antigas, aos sábados, houve por bem me contar que quando lhe dá o "branco", toma uma atitude radical: põe-se de quatro, em posição eqüina, escouceia o ar em volta, zurra e arremete de ponta-cabeça contra a parede mais próxima. Diz ele ser um santo remédio para combater a falta de assunto. Até pode ser, quem sou eu para duvidar de tão honorável amigo. Entanto, confesso que não tenho uma cabeça tão dura quanto a dele e tenho medo de que minhas idéias, ao invés de desembaralhar-se, se misturem definitivamente.
Cá por mim, por ser de natureza mais preguiçosa, prefiro telefonar aos amigos e mui humildemente mendigar-lhes o modesto óbulo de uma idéia, por mais besta que seja. Ou então, apelar para a internet, onde assunto é coisa que não falta, mesmo mercadoria barata que nem bolo em fim de feira. Realmente creio que a falta de assunto trata-se de uma espécie de menopausa literária, provisória e deletéria de todo cronista. Um cronista que não sofre de um episódio banal de falta de assunto não pode ser considerado verdadeiramente um cronista até segunda ordem e, sim, não passa de um desses melancólicos turistas das letras que tanto infestam os nossos matutinos.
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