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Airton Monte

Crônica

Os extremas

Airton Monte
22 Out 2008 - 00h13min

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No começo, bem no comecinho, quando Charles Miller trouxe a primeira bola de futebol para o Brasil, os extremas eram chamados "wingers" e Garrincha ainda não havia nascido, nem Julinho, nem Canhoteiro, nem Pepe, nem Edu, nem Gento, nem Sir Stanley Mathews. Ao depois, quando me aprendi por gente, lá pelos três ou quatro anos de idade, ao aprender a ler sozinho pelas páginas dos jornais, deste prestigioso matutino principalmente, os caras que jogavam pelas bordas do campo ou eram os chamados laterais ou eram os pontas, os ponteiros. Os laterais defendiam, os pontas atacavam.

Quer fossem wingers, extremas, pontas, ponteiros, o que mais os caracterizava, o que lhes conferia a essência era o drible, a ginga com que iludiam seus implacáveis marcadores e rumavam, céleres bailarinos, em direção à linha de fundo e de lá cruzavam, alçavam a pelota, poético e teleguiado míssil, com precisão cirúrgica, na cabeça ou nos pés dos artilheiros. Imaginem a cena: Garrincha encara seu feroz marcador, o Maracanã em silêncio espectral. Uma pausa, o drible, o cruzamento e Vavá, dentro da grande área, fuzilava o goleiro e nascia mais um gol.

Os extremas, os pontas sempre foram, ou deveriam ser, o inesperado do futebol, a poesia presente nos gramados sob a forma sutil de um drible que arrancava os risos da platéia, pois todo ponta tem um quê de Carlitos. Seja ponta direita ou ponta esquerda, os extremas devem possuir, obrigatoriamente, o talento e a capacidade do improviso de um músico de jazz ou de chorinho brasileiro, com certeza. Os extremas devem ser imprevisíveis, pois guardam em si a essência do surpreendente. A ginga, o vai-não-vai e quando se vê, já se foi.

Discordo em gênero, número e grau da aterradora maioria que proclama ser gol o orgasmo do futebol, o seu grande momento de êxtase. Comigo não, violão, sai pra lá abacaxi, que eu tomei leite. Para mim, com mais de cinqüenta anos de arquibancada, o verdadeiro orgasmo do futebol, do ludopédio, do balípodo de todos nós é o drible, pura arte. Se há um "jeitinho" brasileiro despido de qualquer laivo de desonestidade, esse é o drible e o drible é o que define os extremas. Eu vi Garrincha jogar e descobri, maravilhado, que, naquela torta perna direita, residia, absoluto, o mágico segredo do futebol de todos os extremas, assim na terra como no céu.

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22/10/2008
20:50

Hein!....crônica....que crônica!?

Eliane Ribeiro

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22/10/2008
07:05

Magnifica está crô^nica muito bem elaborada!

nandinha

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