14/06/2007 00:58
A tarde se engancha nos telhados feito um anjo embalsamado, um zéfiro de muletas, todo o resto torna-se apenas um mero passageiro do tempo, campânula quebrada, torta ampulheta, embora seja dia dos namorados, o mar seja mulher e um de seus nomes chame-se Sônia. As lojas da cidade, decerto, estão cheias de apaixonados retardatários, de amantes cansados em busca de um presente de última hora, uma lembrancinha qualquer que possa servir como prova irretorquível de amor, mesmo que seja amor fanado, cujo significado já perdeu todo o sentido.
Vejo na televisão, nos jornais os namorados que juram ser felizes e que seu amor contém uma aura de imortalidade e que se amarão, mergulhados em felicidade, pelo resto de suas vidas. Que bom, quão maravilhoso é, ainda existirem no mundo aqueles que acreditam apaixonadamente, cegamente no amor. Tal fato me comove de modo espantoso como se eu, ao invés de cinqüenta e oito, mal tivesse completado quinze anos. Sei lá, alguém pode notar um laivo de ironia no que digo, mas está redondamente enganado ou, então, cruelmente coberto de razão.
Contudo, minha mulher também não acredita mais que eu a ame, embora eu lhe venha dando provas irrefutáveis de um amor pleno e absoluto por trinta longos anos. As mulheres são assim mesmo, desconfiadas por natureza. Portanto, o que mais posso fazer a não ser repetir meu sempiterno discurso de que meu amor por ela é imenso demais, apesar dela se desmanchar em gargalhadas como se houvesse acabado de ouvir uma piada de humor negro. Sim, não se pode negar ser o escritor um mentiroso contumaz, que de vez em quando, profere verdades fundamentais.
Para muitos dos namorados que se celebram mutuamente nesse dia, o amor será breve feito um sonho, uma ilusão de ótica de rápido esquecimento. Num instante, era, no outro, já não era mais, assim muitas vezes amamos. Minha mulher duvida seriamente que eu a tenha amado sequer por um dia. Mal percebe que meu amor dispensa suas eternas dúvidas, eu a amo e isso me basta, me completa, me redime, o meu amor é de um egoísmo brutal, mas que a amo, amo. Porém, minha mulher é uma cética incorrigível, tenaz, nada posso fazer a respeito. Estou preso à minha amorosa verdade que nem uma fera solta pela selva.
Mais um texto lindo de nosso Airton! Recomendo chegada em casa com ramalhete debaixo do braço... Vai amansar a fera e produzir ótima noite...
Paulo César Sampaio