13/06/2007 01:28
Brandão é um grande poeta, porém aqui estou para desmentir-lhe o verso: "beleza só se tem quando se acende a lamparina". Beleza é deparar as líricas cordas de Nonato Luiz. Amanhã, em noite de gala, no Ideal Clube, eu irei encontrá-las. Todos nós já nos sentimos musicais, pois o que de seu violão se evola, mais do que notas em uma pauta, é o diante do inefável. Ah, nós, os carentes; nós, os mendigos do encantamento, cujos joelhos se prostram perante o Belo. Assim, lá estarei eu a olhar e a ouvir este músico cearense, brasileiro e cidadão do mundo.
Quem escolhido for para ouvir Nonato Luiz ao violão, decerto palmilhará um caminho, peregrino sem sandálias. O olhar há de abrir-se a múltiplas estradas, todas labirínticas e sem fio de Ariadne. Caminhar assim é por demais necessário, imprescindível. Mais do que carne somos movimentos. Nonato Luiz recupera, ao violão, as espumas do mar, a folha beijada pelo vento, a telha que guarda a última lágrima da chuva e, em seus acordes, floresce o verde definitivo dos canaviais, o milho da espiga pendoada, a nossa vasta e vária ceia musical.
Por incrível que pareça, Nonato Luiz existe e pode ser visto em carne e osso, seja amanhã no Ideal ou nas calçadas da Parquelândia ou sob a sombra dos ancestrais tamarineiros, postos em fila militar, na praça de Lavras da Mangabeira, terra dos também virtuoses Dimas Macedo, Linhares Filho e do maior dos professores de gramática portuguesa, mestre Itamar Filgueiras. Oh, Lavras, como lavras a palavra, como tudo em ti se converte em música: Nonato Luiz! Não nascido, Nonato, fez-se, enfim, um violão.
O mar do Meireles me fez encontrar Nonato Luiz em um sábado de tarde, sem violão, um pecadilho, digamos assim, venial. Entanto, ainda que se passassem oitocentos anos, era o mesmo amoroso amigo, discretamente genial como se tivesse medo do próprio talento, e eu tive a sensação de que bebera com ele, no dia anterior, a sempre contumaz cervejinha. Me falou dos seus concertos em Paris, Barcelona, em Oslo, Seul, Tóquio e me confirmou um angustiante medo de avião e uma imensa saudade de Lavras da Mangabeira, dos amigos que não vê há muito tempo. Lavras da Mangabeira, sol da pauta, rubi grená, mais precioso e mais puro não há.