Airton Monte
CRÔNICA
Palavras e música
Airton Monte
16 Mai 2007 - 00h42min
Hoje eu preciso, necessito, careço de encher esta tarde de domingo de música como o céu merece as estrelas numa noite de chuva, como um homem implora por um sono pleno de sonhos felizes. Não que eu acredite ingenuamente que qualquer forma de arte seja capaz de salvar a humanidade. O homem é um animal que se inventa, dependendo de quantas patas seja dotado. Eu, por exemplo, sou um quadrúpede de quatrocentas patas como diria Nelson Rodrigues. Só me falta sair galopando por um pasto verde, devorando uma farta touceira de capim mimoso.
Quão belo é me deixar pacificado ouvindo Elis Regina e Tim Maia duetando These Are The Songs, Sinatra poetizando Angel Eyes, Nonato Luís reinventando Round Midnight com virtuosa simplicidade, Antonio José recriando My Funny Valentine com as teclas do piano parecendo uma voz humana alegre e triste. Realmente, é a isso que chamo de Beleza. Quem já ouviu Armando Manzanero cantando Esta Tarde Vi Llover sabe que foi uma experiência única como o brotar de um pé de jasmim, o perfume inundando a casa, a rua, o mundo.
Eu trocaria com a mais absoluta das certezas o meu modesto dom de escrever pelo precioso dom de tocar um instrumento, um violão ou um piano. Ser escritor, por vezes, não passa de um ingrato e inútil ofício. Sim, é claro, que cada palavra possui seu som, sua melodia, embora sejam deletérios e frágeis que nem um cristal partido. Entanto, as coisas são como são, ponto final e saudações polares. O homem é um animal que se encanta, se deslumbra, se fascina, senão a vida não valeria a pena de ser vivida. E é preciso saber viver e saber morrer dignamente.
A memória é o motor da imaginação até que me provem o contrário. E a música é a memória ancestral de qualquer linguagem, quando éramos apenas uma horda gutural e nem sequer havíamos dominado o fogo, a luz primordial de Prometeu. Sou tão antigo e tão recente quanto qualquer de meus desgraçados e benditos semelhantes. E sei que tudo passa e tudo fica de maneira demasiado natural, inclusive este suburbano cronista que escreve estas palavras imaginando fazer música, uma música que jamais fez ou fará. Eu sou mesmo um animal patético.
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