Armando Bispo
01/07/2008 01:03

A medalha, o troféu, o lugar mais alto do pódio, o reconhecimento dos amigos e dos verdadeiros desportistas não foi tudoà Semanas de preparação e dez dias de trilhas longas e pesadas foram palcos de cenas e lances que superam em muito o gosto da vitória. A escolha do carro, da equipe e do navegador e da estrutura modesta foram os primeiros indícios de que corríamos atrás do simples prazer de participar e tentar chegar ao final da competição.
Já em Goiânia pudemos sentir o impacto das grandes equipes, grandes estruturas e o mega evento até o momento do prólogo. O que fazer, acelerar, arriscar, poupar ou quase desistir de entrar na arena dos gladiadores, com um pequeno canivete na mão. Quando os motores roncaram, ficou claro a diferença, até que entramos para a tomada de tempo e logo veio um dos indícios da estratégia mais sábia:
Aquilo que agradava o público, provou ser a estratégia da destruição, como foi o caso do português da moto e do caminhão que voou espetacularmente diante da platéia, mas que acabou nem largando no dia seguinte por ter avariado o caminhão naquele salto espetacular. Largamos no meio do pelotão e logo vieram as primeiras ultrapassagens, muita poeira, muita cordialidade, alguns blefes e os mais potentes iam passando sem muito esforço, embora às vezes e alguns mais forçadamente.
Lembro-me do caso em que estávamos na poeira do Cléber, reconhecendo que ele poderia se livrar dos obstáculos e acelerar, quando um competidor que vinha atrás de nós acabou "cantando" o quilômetro do Cléber (de forma errada), fazendo-o parar e prá nossa surpresa ultrapassamos o mesmo e este ficou aguardando o piloto que pediu passagem de forma errada, a ponto de fazê-lo perder minutos preciosos.
Solidariedade, foi outra marca oculta. Troca de peças, favores entre equipes, loteamento dos espaços de forma democrática e muita interação entre os pilotos e navegadores, iam dando ao rali, características de uma grande família. Ficamos próximos a uma equipe que fazia questão de compartilhar o churrasco de frango, a costelinha de porco e vice-versa.
Cada carro quebrado, cada capotagem, ou dano que retirava alguém da prova era motivo de tristeza por reconhecer que poderia ter sido qualquer um de nós, ademais, esperar horas e horas pelo apoio, além de correr o risco dos lugares desérticos e da noite, faziam da cena um momento em que engulíamos seco e temíamos pelo que estava por vir. Deus, cuida deles e põe-nos de volta na prova, como foi o caso quando o Cléber ia abortando a sua largada por problemas de radiador.
Uma cena desesperadora foi ver a Helena Deyama e sua navegadora acenando aos prantos ao lado do carro que parecia pegar fogo, soltando uma fumaça preta que podia ser vista ao longe. Paramos e descemos do carro para prestar socorro e percebi logo se tratar de um problema de turbina quebrada que ocasionava a famosa retroalimentação. Orientei que ela mesma enfrentasse o problema, entrasse no carro, engatasse uma primeira marcha e tirasse o pé da embreagem bruscamente para causar um estanque no carroà só assim, pararia aquele motor disparado.
Além dos carros e competidores, deparávamo-nos com pessoas simples, moços, velhos e crianças, como uma senhora de quase 80 anos que catava latas de alumínio para se alimentar, cortou-nos o coração, pudemos ajudá-la com alguns dias de trabalho, mas não sem pensar com indignação no descaso dos nossos dirigentes para com o povo do sertão. Cena, não menos triste foi cruzar o nosso combalido e abandonado sertão cearense.
Tive vergonha dos nossos governantes que mostraram para o Brasil e para o mundo uma cidade destruída, deplorável, abandonada, sem infraestrutura e com os acessos todos destruídos. Que má impressão causou o nosso Estado e a Prefeitura de Crateús. O local que ficamos era precário, empoeirado e mal cuidado, diferentemente do que recebemos em outros estados por onde passou o rali.
Temos muitos motivos para comemorar e agradecer a Deus pela preservação da nossa vida e pelo livramento de coisas que quase ninguém viu. Temos e teremos muitas histórias de superação e muito aprendizado para irmos compartilhando nas próximas edições da Coluna 4x4.