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Calçados esportivos: de herói a vilão
Durante muito tempo acreditou-se que para praticar corrida teríamos apenas de calçar um par de tênis, fosse ele qual fosse, e sair por aí
Rafael Fernandes Temoteo
06 Dez 2008 - 17h17min
Durante muito tempo acreditou-se que para praticar corrida teríamos apenas de calçar um par de tênis, fosse ele qual fosse, e sair por aí. Com o aumento da popularidade da corrida como prática de atividade física, entretanto, observou-se que as coisas não eram tão simples quanto se pensava.
O crescente número de lesões entre os praticantes dessa apaixonante modalidade, revelou complexidades na escolha e uso do equipamento apropriado à proteção e desempenho individual. A partir daí todos os setores envolvidos diretamente com este esporte investiram, tanto cientificamente quanto tecnologicamente, na busca para minimizar os riscos desses danos. Esta evolução abrange desde vestuário a acessórios e suplementos, até o calçado, elemento primordial na execução da marcha.
Exatamente por tratar-se de um esporte de impacto, os calçados constituíram o segmento com maior índice de avanços na área. Várias pesquisas surgiram no intuito de promover o desenvolvimento e aprimoramento desse produto que tem como funções atenuar o choque mecânico, fornecer estabilidade adequada e melhorar o rendimento do indivíduo.
Mas, será que esses acessórios cumprem com as funções que lhes foram atribuídas? De uma forma geral, podemos dizer que sim, mas é necessário que façamos algumas ressalvas.
Para reduzir o impacto produzido durante a prática do esporte, os fabricantes de tênis investiram em tecnologias as mais diversas possíveis: ondas, gel, ar, são algumas das mais conhecidas. A verdade é que o sistema anti-impacto, seja ele qual for, precisa redirecionar uma força proveniente da vertical e dissipá-la na horizontal, resguardando ao máximo as articulações.
Durante a corrida, nós temos dois momentos em que as forças são mais intensas; durante o choque do calcanhar e na impulsão; portanto, os calçados apropriados precisam ter um amortecimento tanto no calcanhar como no antepé.
Pisada
Com relação à estabilidade, as grifes têm feito um trabalho de marketing muito forte. Pisada pronada, supinada ou neutra são termos que ficaram em evidência. Será que esses conceitos são tão simples assim? Como eu saberei se tenho uma pisada pronada, neutra ou supinada? O que realmente significam estes termos? Talvez este seja o grande erro das empresas do setor, onde foi criado um produto específico, sem dar-se à sua promoção o suporte “técnico” necessário.
Os movimentos de pronação e supinação são movimentos fisiológicos realizados por algumas articulações do corpo; portanto, pronar e supinar são normais, o prejuízo está no excesso desses movimentos. Falando especificamente da articulação do pé, estes movimentos ocorrem na articulação subtalar (entre o osso talus e o calcâneo), que é uma articulação guia e que normalmente condiciona as outras articulações do pé. Os excessos desses movimentos na subtalar, na maioria das vezes, determinam o tipo de pisada, mas existem as exceções (ou adaptações), onde você pode ter uma subtalar pronada e um antepé supinado, ou até mesmo um pé pronado e o outro supinado.
Respondendo o questionamento acima, estes conceitos não são simplistas. Muito pelo contrário, são bem complexos e precisam ser tratados com especialistas, que, diga-se de passagem, não são os vendedores de tênis das lojas.
Quanto à melhora do rendimento do indivíduo, é necessário levar em consideração todos os outros pontos anteriormente citados, para que, juntamente com uma planilha de treinamento adequada, possa atingir o objetivo do exercício.
Deste modo, entenda-se necessário respeitar as especificidades de cada indivíduo, levando em considerações as regras e exceções a elas inerentes.
Rafael Fernandes Temoteo é fisioterapeuta, especialista em terapia manual e postural, com formação em podoposturologia, em isostreching e em equilíbrio neuromuscular. clinicaposture@gmail.com.
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