Aderbal Bonturi Pereira
Diretor do MMF
04/10/2008 16:15
Os efeitos dos campos eletromagnéticos sobre as pessoas têm sido amplamente estudados há mais de 60 anos, englobando desde radares e transmissores de rádio e TV até, mais recentemente, a telefonia celular. Ainda assim, a utilização maciça de telefones celulares e a proliferação das estações rádio-base, mais conhecidas como antenas, continuam gerando muita controvérsia, no Brasil e em vários outros países, quanto à relação desses equipamentos com a saúde humana. Afinal de contas, por que tanta polêmica?
Por se tratar de uma tecnologia relativamente nova, é natural que surjam questionamentos sobre saúde e segurança relativas ao uso de telefones celulares, especialmente se considerarmos a rápida e ampla popularização desses equipamentos no mundo todo. Também é fato que, por serem invisíveis e intangíveis, os campos eletromagnéticos tornam-se mais 'misteriosos' para o entendimento das pessoas em geral.
Para completar o quadro, existe muita confusão nas informações que chegam ao público - muitas vezes, a mídia veicula afirmações infundadas atribuídas a pessoas que se dizem "experts" no assunto, destaca estudos que ainda não passaram pelo processo de verificação e validação da comunidade científica internacional, ou até 'avaliza' pesquisas que não seguem a metodologia e os padrões científicos rigorosos.
Assim, apesar da existência de várias revisões científicas internacionais que afirmam não haver nenhuma evidência científica sobre efeitos adversos à saúde relacionados ao uso de telefones celulares ou estações rádio-base, esta permanece como uma das questões de saúde pública mais discutidas dos últimos tempos.
Mais de 2.500 pesquisas e estudos publicados, no mundo todo, foram revisados pela Organização Mundial de Saúde (OMS); entre estes, mais de 1.100 trabalhos específicos sobre telefones celulares, realizados por diversos governos e autoridades de saúde. É com base nessas revisões que a OMS e outras autoridades de saúde isentas e independentes têm, repetidamente, reafirmado o consenso científico internacional sobre a segurança dos telefones celulares e das estações rádio-base.
A mais recente posição da OMS sobre o tema é clara: "Considerando os níveis de exposição muito baixos, bem como os resultados de pesquisas coletadas até o presente, não existe evidência científica convincente de que sinais fracos de RF provenientes de estações rádio-base e redes sem fio causem efeitos adversos sobre a saúde (2007)".
Mesmo assim, é comum vermos, com uma certa freqüência, relatos sobre novas 'pesquisas' e 'estudos' realizados em diferentes pontos do planeta, com 'descobertas' sobre a relação entre telefonia celular e saúde.
Estudo científico
Para serem aceitos pela comunidade científica internacional, os resultados de qualquer pesquisa ou estudo científico, depois de cumpridas as etapas básicas de avaliação dos procedimentos quanto ao ambiente da pesquisa, dos equipamentos utilizados para o teste, da metodologia em si, e dos critérios usados para análise e interpretação, devem passar por um longo processo que inclui (1) a sua publicação em uma revista científica de alto nível de credibilidade junto à comunidade científica internacional; (2) a análise 'por pares', ou seja, por outros cientistas ligados à área; e (3) a replicação da descoberta original e da realização de experimentos complementares, já que é comum a obtenção de resultados divergentes, mesmo com a manutenção dos mesmos métodos e processos.
Vale ainda destacar que, do ponto de vista científico, nenhum estudo pode, isoladamente, responder a uma questão científica; ele deve ser analisado em conjunto, à luz da totalidade das pesquisas realizadas sobre aquele determinado tema.
A conclusão disso tudo é muito simples e direta: qualquer estudo, pesquisa, ou mesmo opinião isolada de um cientista ou de um grupo de cientistas somente pode ser considerada como verdadeira se todos esses critérios tiverem sido total e responsavelmente atendidos. Caso contrário, estaremos frente a hipóteses ou especulações sem comprovação e, portanto, sem validade científica.
Aderbal Bonturi Pereira é Diretor do Mobile Manufacturers Forum (MMF) - Associação internacional de fabricantes de equipamentos de telecomunicações - para a América Latina