Ronaldo Rogério Mourão
astrônomo
26/05/2007 15:04
Uma vez na Lua Azul... É uma maneira de dizer que um acontecimento é impossível ou muito pouco freqüente. Na realidade, o que é uma Lua Azul? É a segunda Lua cheia que ocorre em um mesmo mês do calendário. Assim, neste mês de maio de 2007, ocorreu uma Lua cheia em 2 de maio e ocorrerá uma segunda em 31 de maio. Esta última é uma Lua Azul.
No começo do processo civilizatório, a Lua era o grande marcador de tempo. Nos calendários lunares - os primeiros elaborados pelo homem -, o início do mês era determinado pelo primeiro mais fino crescente visível, logo após a Lua nova. Em conseqüência dessa convenção, a ocorrência de uma segunda Lua cheia num mesmo mês era praticamente impossível, como ainda ocorre com o calendário lunar dos muçulmanos. Assim, a Lua Azul associada à idéia de algo impossível, que nunca acontece, deve ter surgido nesta época, quando o único calendário em uso era o lunar.
Para compreender a relativa raridade de duas luas cheias num mesmo mês, procuraremos analisar com mais detalhes o mecanismo que rege as fases da Lua nos calendários lunissolares, como no nosso.
A duração média de uma lunação, ou seja, o intervalo de tempo entre duas fases iguais e consecutivas da Lua, é de 29 dias, 12 horas, 44 minutos e 2,9 segundos. Assim, se em 1 de janeiro ocorrer uma Lua cheia, a próxima se dará no dia 30 ou 31 de janeiro, de acordo com a hora. A Lua cheia seguinte cairá em 29 de fevereiro, se o ano for bissexto, em caso contrário, em 1 de março. Neste último caso, a Lua cheia subseqüente vai ocorrer em 30 ou 31 de março.
As luas cheias sucessivas, nesse ano imaginário, uma vez por mês, cairão sempre um dia antes do mês anterior, ou seja, respectivamente, em 29, 28, 27, 26 etc. Verifica-se portanto que as fases da lua, ao longo do calendário lunissolar, vão depender de vários fatores: se o ano é bissexto, se o mês tem 30 ou 31 dias, se a fase da Lua se inicia no primeiro ou segundo dia do mês.
Duas luas azuis num mesmo ano. Existem anos que ocorrem duas luas azuis. É um fenômeno raro. Em 2018, vão ocorrer duas luas azuis: uma em 31 de janeiro e outra em 31 de março. Situação análoga só ocorreu em 1915 e 1999.
Em 1961, ocorreram duas luas azuis uma em 31 de janeiro e outra em 30 de abril, este fenômeno de uma lua azul no mês de janeiro e outro em abril, no mesmo ano, é um evento mais raro: ocorreu em 1741 e vai se repetir de novo em 2094. Ainda mais rara é a ocorrência de duas luas azuis: uma em 31 de janeiro e outra em 31 de maio. Um tal acontecimento é previsto para 2113 e outra para 2333.
Uma tradição de origem no Egito. A expressão Lua Azul parece ter surgido entre os egípcios para designar a lua cheia do décimo-terceiro mês do seu calendário. Como este mês estava associado à cor azul, que era a cor da boa sorte, convencionou-se denominar esta décima-terceira lua cheia de Lua Azul. Na realidade, essa e a segunda lua cheia de um mesmo mês não se apresentam com a coloração azulada. Sua designação é simplesmente uma convenção.
Mas, às vezes, surge uma coloração levemente azulada no disco aparente da Lua, provocada pela interposição de partículas na alta atmosfera terrestre - como cinza, poeira vulcânica, etc. Em grande quantidade, tais partículas absorvem as radiações vermelhas, deixando passar as radiações azuis, que produzem a coloração azulada da imagem lunar. Essa cor azul ocasional da Lua foi largamente observada durante a erupção do vulcão Krakatoa, em 26 de agosto de 1883, e em 26 de setembro de 1950, durante um incêndio em florestas canadenses, quando poeiras se espalharam mas altas camadas da atmosfera, e, mais recentemente, durante a erupção do vulcão havaiano Pele, em 2 de abril de 1984.
Ronaldo Rogério de Freitas Mourão é astrônomo, criador e primeiro diretor do Museu de Astronomia e Ciências Afins, escreveu mais de 85 livros, entre eles
E MAIS
- Essa semana será especialmente interessante para os observadores do céu, pois quatro dos cinco planetas vistos a olho nu serão visíveis no início da noite durante cerca de 45 minutos depois do pôr do Sol.
- Vênus será o mais notável. Ele será suficientemente brilhante no céu azul logo após o pôr do Sol, do lado do poente. Ainda que o seu maior afastamento do Sol irá ocorrer no dia 9 de junho, Vênus alcançará a sua máxima aparição vespertina desse mês durante o ano de 2007.
- Vênus brilha com uma magnitude de -4,2 (cerca de treze vezes mais brilhante de Sírius, a estrela mais brilhante do céu) e estará mais aproximadamente 40º acima do horizonte oeste do pôr do Sol.
- Vênus é a irmã da Terra em seu tamanho envolto por uma tensa nuvem de dióxido de carbono, que aumenta o seu brilho em virtude do seu alto poder de reflexão (cerca de 76%). Júpiter por seu lado é um planeta completamente diferente - gigantesco envolto por uma camada de metano, amônia e gelo.
- Próximo ao horizonte, no poente, o planeta Mercúrio estará na sua maior elongação a 23º a leste do Sol.
- Do lado oposto, ou melhor do lado do nascente, o planeta Júpiter brilha com uma magnitude de -2,6. Ele não estará muito longe de Antares, a estrela vermelha de primeira magnitude que constitui o coração da constelação do Escorpião que será ocultada pela Lua Azul - a segunda lua cheia do mês - no dia 31 de maio, às 19horas e 30 minutos.
- Entre Vênus e Júpiter estará Saturno com os seus anéis. Visível a olho nu, Saturno aparece como uma estrela moderadamente brilhante de cor branco-amarelada situada muito próxima no limite das constelações zodiacais do Leão e do Câncer.