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Ciência & Saúde

TRANSTORNO ALIMENTAR

Quando a comida vira inimiga

A busca obsessiva pela magreza em detrimento à saúde preocupa especialistas que alertam para o perigo da preocupação exagerada com a imagem corporal. Estima-se que 1,4 milhão de brasileiras sofrem de anorexia, um transtorno alimentar grave, onde as pacientes passam a ver a comida como inimiga por medo de engordar

Fátima Guimarães
da Redação

09 Dez 2006 - 15h08min

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Magra, sem barriga. Esse padrão de beleza como fórmula para o sucesso e a felicidade é cada vez mais perseguido pelas mulheres, mesmo que para isso coloquem em risco a saúde. Numa sociedade que dá ênfase à aparência, ninguém quer ser vista como cheinha, gordinha, fofinha. Sem orientação, muitas buscam nas dietas restritivas a receita para atingir a silhueta esbelta, difundida pela mídia como padrão de beleza. Mas é preciso ter cuidado, pois

é mais freqüente do que se imagina casos de transtorno alimentar em adolescentes e adultos jovens, principalmente, do sexo feminino.

A anorexia e a bulimia são os tipos de transtorno alimentar mais comuns, mas na maioria dos casos, há uma demora da família em reconhecer os sinais. Na anorexia, por exemplo, a procura ao médico ocorre quando a pessoa apresenta algum sintoma clínico em decorrência do distúrbio, como perda de peso acentuada, fraqueza, queda de cabelo, desmaio, ausência da menstruação. Esses transtornos são muito freqüentes entre as jovens modelos, que vivem a ditadura da magreza para se manterem no mercado. Porém, atingem meninas sem pretensões de ingressar nesse ramo, mas que sonham com um corpo "perfeito".

O psiquiatra Fábio Gomes de Matos, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) e coordenador do Centro de Tratamento de Transtorno Alimentar (Cetrata), observa que os pais devem orientar os filhos para terem uma vida saudável. "O grande problema é que o bebê bonito é o gordinho, depois há uma cobrança muito grande para que o indivíduo seja magro".

A rejeição social à obesidade é considerado um fator fundamental para o desenvolvimento de transtorno alimentar, definido como desvio de comportamento alimentar que pode levar ao emagrecimento extremo, ao excesso de peso ou a outros problemas físicos. Cerca de 90% dos pacientes com transtorno são mulheres, onde a pressão para ser magra é mais forte.

Mas a anorexia nervosa não é uma coisa da modernidade. Foi descrita pela primeira vez em 1689 pelo médico inglês Richard Morton. Estima-se que 1,4 milhão de brasileiras sejam portadoras de anorexia. Em 95% dos casos a patologia atinge mulheres. A taxa de mortalidade é de 10% a 15% das pacientes. No mundo da moda, o caso mais recente foi o da modelo Ana Carolina Reston, 21, que morreu em conseqüência da anorexia nervosa. Ela estava pesando 40 quilos distribuídos em 1,72 metro.

Quatro dias após a morte da modelo, a estudante Carla Casalle, de 21 anos, também morreu vítima da anorexia. Ela, que estava há cinco anos em tratamento, media 1,70 metro e pesava 45 quilos. Em Araçatuba (São Paulo), longe das passarelas, a anorexia fez outra vítima também em novembro. A manicure Rosana de Oliveira, 23, há três anos sofria do transtorno e foi internada com complicações. Segundo os familiares, a jovem escondia a comida em baixo da cama e depois jogava no lixo. Com 1,68 metro, pesava 38 quilos, mas ainda se achava gorda.

A anorexia se caracteriza pela redução drástica do consumo de alimento pelo medo de engordar. Enquanto que na bulimia, há a ingestão compulsiva de alimento seguido de comportamento compensatórios inadequados como a indução ao vômito, uso de laxantes, diuréticos. A anorexia pode estar associada à bulimia. A nutricionista Silvana Souto, especialista em transtorno alimentar e mestre em saúde pública, observa que a magreza está associada ao sucesso, felicidade, estabilidade e que essa é a imagem passada pela mídia. "Os pais são exemplos de comportamentos, nos hábitos alimentares, na preocupação excessiva com aparência física".

Para a psicóloga Silvana Martani, da Clínica de Endocrinologia do Hospital Real da Beneficência Portuguesa de São Paulo, negar a comida passa ser uma solução para atingir a imagem desejada, que no espelho tem muitos quilos a mais. "O corpo que o indivíduo passa a imaginar é o que está na revista". Ela observa que este último século valorizou a imagem como um dos pilares de sucesso e alerta que é preciso ficar atento aos exageros de cuidados, preocupação e zelo com a imagem, pois esses fatores aliados à solidão, tristeza podem causar muitos sofrimentos. "É importante procurar ajuda cedo".


FIQUE DE OLHO

ANOREXIA NERVOSA
É um transtorno alimentar que se caracteriza por um medo obsessivo de engordar e, em conseqüência, o indivíduo adota uma dieta restritiva e insuficiente para alcançar seu objetivo. É uma doença de caráter psicológico.

- Faixa etária mais comum: dos 12 aos 18 anos

Primeiros sinais
- Preocupação excessiva com o peso;
- Fala muito em dieta;
- Evita fazer as refeições em família com o argumento de que não está com fome;
- Está sempre se pesando para conferir o peso;
- Costuma medir algumas partes do corpo como cintura, coxa;
- Exagero nas atividades físicas;
- Escolhe alguns alimentos como "inimigos". Um exemplo, se achar que água engorda, pára de beber.

Conseqüências da dieta restritiva
- Perda de peso
- Isolamento social
- Queda de cabelo
- Irritação
- Menstruação irregular ou pára de menstruar
- Humor depressivo

Quadro agravado
- Pressão baixa
- Fadiga
- Infecções de repetição (defesas do organismo diminuem)
- Batimentos cardíacos lento. A parada cardíaca é a principal causa de morte das anoréxicas


BULIMIA NERVOSA
Caracteriza-se por episódios repetidos de compulsões alimentares seguidos de comportamentos compensativos inadequados como vômito induzido, uso de laxantes, diuréticos, jejuns prolongados.

Sinais
- A exemplo da anorexia, a pessoa apresenta uma perturbação da forma e do peso corporal e manifesta um medo excessivo de engordar.
- Isolamento social.
- Evita sair para comer.
- Ida freqüente ao banheiro após as refeições.
- Costuma levar comida para dentro do quarto.

Quadro agravado
- Irritação da garganta;
- Dor abdominal;
- Desidratação.

Causas dos transtornos
- Fatores biológicos, psicológicos e culturais;
- Baixa auto-estima;
- Conflito de identidade.

Tratamento
O distúrbio é tratado por uma equipe multiprofissional que envolve psicólogo, psiquiatra, nutricionista e consiste no restabelecimento do comportamento alimentar adequado.
- Terapia de grupo ou individual que ajuda o indivíduo no resgate da auto-estima;
- Farmacoterapia (uso de anti-depressivos);
- Abordagem nutricional;
- Reeducação alimentar.


Fonte: Banco de Dados do O POVO; nutricionista Silvana Souto; psiquiatra Fábio Gomes de Matos

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