Rosa Sá
da Redação
A manifestação teve por meta apresentar os problemas que as diversas comunidades enfrentam na luta por terras
22/08/2008 00:47

Índios das 13 comunidades presentes no Ceará movimentaram ontem à tarde as ruas do Centro de Fortaleza. Eles usaram o ato para denunciar as ameaças de expulsão de seus territórios. Cantando e dançando o toré e o torém, ao som do toque de tambores e maracás, eles marcharam partindo da Praça José de Alencar até a Praça do Ferreira, denunciando posseiros, governos e empresas que implantam empreendimentos nas terras que seus povos habitam.
"Não nos rendemos nem nos vendemos" foi o tema da manifestação, que conseguiu mexer com populares, ambulantes, comerciários e comerciantes num dos horários de maior movimentação na área. Conforme externou Weibe Tapeba, da Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme), os cerca de 22 mil indígenas do Estado vêm há anos enfrentando uma campanha que visa negar suas existências e culturas. "Estamos vivos. Queremos viver dignamente", dizia uma das faixas que conduziram na caminhada.
"Queremos mostrar à sociedade os problemas causados pelas invasões e conflitos que envolvem grandes multinacionais, com o apoio dos poderes políticos. A todo custo, eles querem expulsar os povos indígenas do Ceará de suas terras", disse ele, enumerando as principais questões enfrentadas pelos índios cearenses. Na aldeia de uma das três comunidades habitadas pelos Tremembé, em Itapipoca, a luta é contra um grupo empresarial internacional que implanta um complexo hoteleiro nas terras de São José e Buriti, que de acordo com ele, é habitada secularmente pelas populações indígenas. Na comunidade Tapeba, em Caucaia, a ameaça é de um mandado de segurança que pede a anulação da demarcação das terras, pelo que lutam há mais de três décadas. Em Aquiraz, a luta dos índios Jenipapo Kanindé, é contra uma empresa que há mais de 20 anos retira água e polui a lagoa da Encantada.
Os Anacés, índios do município de São Gonçalo do Amarante, denunciaram que desde a construção do Porto do Pecém, a situação da comunidade vem se agravando, dada a expulsão de três comunidades e as ameaças de fortes impactos ambientais que os empreendimentos previstos para o lugar podem causar. Em Maracanaú, os Pitaguarys estão ameaçados de perder judicialmente parte de suas terras para um posseiro que ocupa uma área de 600 hectares no meio da aldeia Santo Antônio dos Pitaguary. Também os índios que habitam os municípios de Crateús, Monsenhor Tabosa, Poranga, Quiterianópolis e Novo Oriente vivenciam conflitos tanto por conta da ausência de identificação indígena desses povos, quando da falta de demarcação de suas terras.
"Negar nossos direitos é uma vergonha para o Estado do Ceará", disse o cacique João Venâncio, dos Tremembé, colocando que o sofrimento do seu povo nas aldeias de São José e Buriti, em Itapipoca, é vivenciado também nas demais comunidades onde se fazem presentes, nos municípios de Acaraú e Itarema. O cacique disse que todo o povo está unido para não permitir que a expulsão das comunidades aconteça. Ele admite, porém, que a pressão e as ameaças são cada vez mais fortes, comentando que a força do dinheiro compra tudo. "Mas estamos prontos para enfrentar", sentenciou. Tiago Anacé reforçou que os povos indígenas têm raízes históricas nas terras que seus avós e pais nasceram, se criaram, formaram famílias mantendo os traços da cultura.
A manifestação dos índios recebeu o apoio de moradores e pescadores da Prainha do Canto Verde, em Beberibe, Instituto Terramar, Missão Tremembé, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Crítica Radical, estudantes universitários e professores do curso de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC).
E-Mais
Saindo da praça José de Alencar, os índios seguiram pela rua General Sampaio, São Paulo e Major Facundo, até alcançar a praça do Ferreira. Por onde passavam, chamavam a atenção de curiosos, atraídos pela música e canto que apresentavam na caminhada.
Durante a manifestação, os índios anunciaram que pretendem ampliar a organização dos povos, e para isso, programam ir a Brasília para contatos no Ministério da Justiça, Superior Tribunal de Justiça (STJ) e Fundação Nacional do Índio (Funai).
Na pauta, cobrança por respeito e maior atenção as questões que afetam as comunidades. Para os povos indígenas do Ceará, o Governo Federal vem priorizando comunidades indígenas da Amazônia, e discriminado os índios do Nordeste.
Outra questão a ser enfocada é da política das demarcações, que conforme denunciaram os índios no decorrer da manifestação, a cada ano tem menos recursos direcionados para esse trabalho. Com isso, é cada vez mais diminuto o número de demarcações.